Aderbal de bom astral

Jornal do Brasil
Caderno B
28 novembro 2004
por Rachel Almeida

A espaçosa estante da sala, ainda meio carente de livros, assinala a mudança recente de endereço. Mais perto da praia depois de trocar Copacabana por um apartamento no Jardim de Alah, o premiado diretor Aderbal Freire-Filho anuncia que vai dedicar o primeiro semestre de 2005 aos suecos. E brinca com isso:

– Eu me aproximei do mar, há alguns meses, e arrumei uma forma de equilibrar esse surto tropical. Para compensar o verão que me espera, elegi 2005 como meu ano sueco.

Os suecos encarregados de refrescar o verão de Aderbal são o cineasta Ingmar Bergman e o dramaturgo Lars Norén. Do primeiro, ele vai adaptar o filme Sonata de outono (de 1978) para a abertura do teatro das atrizes Marieta Severo e Andréa Beltrão, ainda sem data definida: a Casa de Teatro, em Botafogo. Estrelada por ambas, a montagem, que narra um acerto de contas entre mãe e filha, marca a segunda parceria profissional de Aderbal com Andréa, após A prova, do americano David Auburn, espetáculo que lhe rendeu o Shell de melhor direção no ano passado. Com Marieta Severo, sua namorada há alguns meses, ele dividiu o palco apenas uma vez, no começo dos anos 70, em um de seus, agora esporádicos, trabalhos como ator.

– As duas têm uma profunda ligação pessoal e artística. Tanto que resolveram realizar juntas o sonho de praticamente todo ator de teatro, que é ter sua própria casa – observa.

Simultaneamente a Sonata de outono, este cearense de 63 anos, tranquilo, falante e sorridente (exceto quando tenta posar sério para as fotos, o que nem sempre consegue) trabalhará na montagem de Sangue, tragédia moderna de Lars Norén, com elenco que inclui Marília Gabriela, José Wilker e Guilhermina Guinle.

– A ideia era montar essa peça ainda este ano, mas acabamos tendo que adiar por falta de patrocínio. Trata-se de uma história cruel, envolvendo um casal de chilenos radicado na França: ela é jornalista e escritora e ele, um psicanalista – antecipa.

Ainda na lista de planos do diretor, radicado no Rio desde 1970, está a montagem de outro romance-em-cena, aproveitando a bem-sucedida trajetória de O que diz Molero, adaptação da obra homônima do português Diniz Machado. Vencedor dos prêmios Shell de melhor direção e melhor ator (Orã Figueiredo) deste ano, o espetáculo – que já cumpriu temporadas no Rio, em São Paulo e Brasília e passou pelos principais festivais de artes cênicas do país – voltou ao cartaz quinta-feira, desta vez no Teatro do Leblon, ingressando no circuito comercial, como frisa o diretor. Coisa rara para um espetáculo de mais de três horas de duração.

– O Molero é um fenômeno por onde passa. Nunca montei um espetáculo que provocasse uma reação tão entusiástica na plateia. As pessoas gritam, parece show de rock. E olha que elas estão vendo uma peça de quase quatro horas. O que vamos tentar fazer agora, entrando em um teatro do circuito comercial (a estreia aconteceu, no ano passado, no incendiado Teatro Casa Grande, demolido para dar lugar a um shopping center), é contrariar uma lei de mercado que diz que os espetáculos não podem ser longos. E vou romper com mais: a gente está fazendo, na quinta e na sexta, sessão às seis da tarde, o que é incomum nos espetáculos em cartaz. Eu estou seguro de que existe, nesses dias da semana, uma plateia potencial maior às seis do que às nove – reflete Aderbal, que, ainda assim, reduziu a versão inicial da montagem em 20 minutos.

 

O mercado teatral e sua difícil equação

 

O gênero romance-em-cena – uma adaptação quase exclusivamente cênica, já que pouco se mexe no texto original – foi inventado por Aderbal em 1989, na montagem de A mulher carioca aos 22 anos, de João de Minas. Nessa época ele iniciava seu trabalho à frente do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo.

– O Centro foi formado quando a gente ocupou o Teatro Gláucio Gill, em 89. Foi uma ocupação, digamos, marginal. Uma invasão. Nós invadimos um prédio abandonado que seria demolido se a gente não tivesse intervindo – lembra o diretor, que conduziu o Centro até meados dos anos 90, ao lado de atores como Orã Figueiredo, Raquel Iantas, Gillray Coutinho e Cláudio Mendes.

A trupe, que voltou a se reunir em O que diz Molero, deve se reencontrar em 2005 em um terceiro romance-em-cena: O púcaro búlgaro, obra-prima de Campos de Carvalho, mineiro radicado em São Paulo até a morte, em 1998.

– Para mim, o Centro está sempre hibernando. Não quero considerar que acabou, porque o sentimento dele continua existindo. Estou sempre achando que a gente pode se unir – comenta, saudoso.

Formado em Direito em Fortaleza, Aderbal, que começou a fazer teatro ainda no colégio, nunca exerceu advocacia. Em compensação, já foi radialista, vendedor de móveis de arte e técnico em prospecção sismográfica de petróleo, na Petrobras.

– Fazia tempo que eu pensava em me mudar para o Rio, mas precisava de uma boa desculpa. Por isso, acabei me inscrevendo em um concurso que a Petrobras fez no Nordeste e consegui vir pra cá. Tudo para começar a fazer teatro no Rio, o que a timidez sempre impedia. Acabei voltando para Fortaleza e fiz Direito. Depois de me formar é que voltei para cá de vez e venci a timidez – diz ele, lembrando que um de seus primeiros trabalhos no Rio foi em Diário de um louco, de Nicolai Gógol, montado dentro de um ônibus que circulava pelas ruas de Ipanema.

Com mais de 40 montagens nas costas, Aderbal começou a dirigir em 1972, quando adaptou Flicts, de Ziraldo, sua experiência única no teatro infantil. O primeiro grande sucesso foi Apareceu a Margarida, estrelado por Marília Pêra em 1973.

– Sempre que encontro o Ziraldo, ele brinca dizendo que só perdemos para o Pluft, em termos de sucesso no teatro infantil. O “nosso” Flicts está sempre em cartaz em algum lugar do Brasil – diz ele, que na ocasião percebeu que a direção era seu verdadeiro caminho.

– Apesar de ser artista de teatro há muito tempo, foi surpreendente descobrir que as ferramentas que eu sabia usar estavam na direção. É difícil dizer isso em palavras, mas, até hoje, minha relação com a encenação é visceral.

Acostumado a montar cerca de quatro espetáculos por ano, o diretor reclama de uma retração nas artes cênicas no país este ano, quando dirigiu apenas uma montagem: Dilúvio em tempos de seca, com Wagner Moura e Giulia Gam.

– As mudanças anunciadas nas leis de incentivos fiscais há mais de um ano, e ainda não concluídas, pararam o teatro este ano. Houve receios dos investidores – analisa Aderbal, que, apesar de defender mudanças, adverte que a atividade não pode ficar estagnada.

– O mercado do teatro apresenta uma equação difícil de resolver: é uma atividade cara para quem vai e insuficiente para quem faz. Uma equação que se equilibrou com patrocínios e incentivos fiscais, mas não de forma ideal. Que esse mecanismo precisa ser alterado, que é cheio de injustiças, que favorece algumas pessoas, tudo isso a gente sabe que acontece. A revisão deve ser feita, mas com o teatro funcionando. Se houver interesse, claro, em manter o teatro no Rio. Senão vamos voltar para a prospecção de petróleo…