MADRI: PROGRAMAS PARA CORPO E ALMA

Jornal do Brasil
05 novembro 2000
ADERBAL FREIRE-FILHO

Nem a Gran Via, a Plaza Mayor, Cibeles, a Puerta del Sol. Outras madris. Primeiro, vou sugerir um lugar para ficar, nem o Ritz nem um dos famosos, baratos e promíscuos hostales. Minha sugestão: os Apartamentos Recoletos, na Calle Villanueva. É um lu­gar barato, mas nem tanto (tem preço por dia, por semana e por mês), e hospeda os bailarinos do Momix, por exemplo, que podem estar na cidade para o Festival de Otoño.

Você está agui (como nos mapas de metrô): entre o Paseo de los Reco­letos e a famosa e cara Calle Serrano, exatamente ao lado da Biblioteca Nacional. Você está às margens do bairro Salamanca, uma área chic da cidade, onde o metro quadrado é caríssimo. Fiz umas contas e descobri que estava trabalhando três meses lá para comprar meio metro quadrado na vizinhança. Se seu caso é “compro, logo existo”, nas Calles Serrano e Goya, as grifes mais sofisticadas da Espanha, Prada, Loewe, muitas outras. Mas se você não está nessa, sugiro a primeira paralela de Serrano para cima, Calle Claudio Coello. São só galerias de arte.

Aqui também você não está longe do Museu do Prado, pode ir a pé. Meu amigo, o cenógrafo português José Manuel Castanheira, prefere, entre todos os museus de Madri, o Thys­sen-Bornemisza. Castanheira diz que tem as coleções perfeitas, um pouco de tudo.

Já que estamos no Thyssen, coma aí mesmo. Sempre comi direito no pequeno restaurante do Thyssen, um precinho “em conta” (como diz a mamãe) e uma comidinha decente. E, falando em comida, saio do ja­mon e do cozido do Bola, assim co­mo saí da Gran Via: vá comer uma perdiz no Riofrio, um restaurante em frente a Audiencia Nacional, a do juiz Baltazar Garzón, do Pino­chet. Os garçons (não o Baltazar) são conversadores e se vangloriam de terem atendido a vários ministros do Interior, seus vizinhos.

O Restaurante de los Espejos, no Paseo de los Recoletos, é imperdível pela arquitetura e lindos murais. E o Café Gijón, centenário ponto de encontro de artistas e escritores. Mas o meu restaurante preferido nas redondezas é o La Corralada, na Calle Villanueva. É acolhedor, tem desenhos do Miró autografados para o dono da casa e come-se bem, com simplicidade.

Aliás, para quem gostou da área, mas quer se hospedar melhor, na próxima esquina está o refinado Hotel Wellington. Meus amigos Pepe Nieto, autor de trilhas do cinema espanhol, e Fidel Almansa, ator, que me levaram para boas gastronomias, também me apresentaram os Vips, uma rede de fast food espalhada por Madrid, onde se come de mal a melhor (ficam geralmente abertos até às 3 da manhã, quando são a única saída).

Uma curiosidade: existe uma lei que obriga todos os restaurantes, dos mais finos aos mais simples, a oferecer um menu del dia (entrada, prato principal, sobremesa e bebida), mais barato, na hora do almoço, de uma às quatro da tarde.

O grande barato de Madri nesta época é o Festival de Otoño. Grandes companhias de teatro e de dança, nacionais e do mundo inteiro, apresentam-se. Você pode dar de cara com o Peter Brook.

Quem gosta de dança deve conferir a programação do Teatro de Madrid. O José Manuel Garrido, seu diretor e programador, é um especialista, e o teatro tem sempre o melhor da Europa, como o grupo de dança inglês DV-8. Tome a linha 9 do metrô, salte na estação Barrio del Pilar e você está na área.

Ainda os teatros. Perto de você, está o belíssimo­ Teatro Maria Guerrero, sede da Companhia Dramática Nacional. A sala também acolhe produções que não são da Companhia. E nos outros teatros, vale a pena conferir as peças de José Sanchis Sinisterra. Um espetáculo com a atriz Petra Martínez, dirigido pelo Juan Margallo, eu não perco.

Não deixe de ir ao Teatro de la Abadía, onde José Luis Go­mez, excelente ator e diretor, mantém sua companhia. Se você quiser ver uma montagem do gênero espanhol ge­nuíno, vá ao Teatro de la Zarzuela.

Cansou? Saia do seu apart-hotel, pegue a Ser­rano, dobre à direita, e você está a duas ou três quadras do maravilhoso Parque del Retiro, a praia e a montanha de Madri. Aproveite para ler uma das excelentes crônicas do Juan José Millás (ele escreve às sextas no El País). O paraíso completo: no caminho, você entrou na Mallorca, a melhor confeitaria da cidade, e comprou uns docinhos.

As livrarias. A melhor é a Casa del Libro, na Gran Via. É uma livraria infinita. E há sempre uma Crisol perto de você. Como Madri, culturalmente, ferve, você deve ir a um dos centros do fervo, o tradicional Círculo de Bel­las Artes. Tem sempre uma exposição (vi lá, ano passado, os inquietantes desenhos de Gunther Grass, o escritor e prêmio Nobel), algumas salas de espetáculos, e um agradabilíssimo salão de chá. Quem não é sócio tem que pagar 200 pesetas (menos de dois reais) para entrar no salão. Mas tenho um amigo argentino que faz cara de sócio e passa.

E o futebol? Você se sente em ca­

sa, com a vantagem de que lá Rival­ do, Roberto Carlos, Sávio, Djalminha jogam todo o futebol que sabem. Tudo é tão parecido que a seleção espanhola vive uma crise: apesar dos craques, falta alguém para fazer gol. Sabe como eles resolveram? Naturalizaram e convocaram para a seleção o artilheiro do campeonato, o pernambucano Catanha.