LOUCURA EM PROSA E VERSO

O Globo, 25/03/2009
Aderbal Freire-Filho

Alguma vez pensei, sinceramente, em dedicar minha encenação de “Hamlet” a Barbara Heliodora. Queria expressar meu reconhecimento a essa mulher que tanto fez e faz pela divulgação da obra de Shakespeare entre nós. Estou inevitavelmente ligado a ela, um espetáculo teatral tem vida breve e nasce e morre geralmente na mesma cidade. Com Barbara Heliodora, contemporânea e concidadã, mantive um diálogo sem vozes (nem telefonemas), eu com cenas sobre os palcos da cidade, ela com palavras impressas, ao longo de muitos anos. Discordamos muito, mas isso já importa pouco, assim são as coisas e as pessoas.

Esse “Hamlet” foi um dos meus raros espetáculos estreados fora de casa. Quando se transformou no sucesso que lotou o teatro paulista por oito meses seguidos, lamentei não ter feito essa homenagem, pois ela se justificaria então plenamente. No primeiro momento era só a expressão de um reconhecimento, quando eu fazia meu espetáculo-síntese, aquele que me cobrava todas as artes e engenhos experimentados antes, para encenar a peça de Shakespeare. Mas o sucesso faria da dedicatória mais do que isso, seria uma maneira de dividir com ela uma conquista, de dizer “você que ama tanto esse autor, que certamente mais do que ninguém no Brasil quis que ele fosse amado está presente quando tanta gente – 40 mil pessoas – se emociona, se diverte, se envolve profundamente com talvez a mais bela história que ele criou.”

Não quero simplesmente discordar dela mais uma vez quando leio sua crítica. Queria, como autor de uma imaginada dedicatória, tomar a liberdade de sugerir a ela um novo olhar: o olhar de quem procura entender por que tanta gente lota esse “Hamlet”, mais ainda, por que tanta gente assiste a ele absolutamente fixada no palco (uma rara plateia sem tosses), se diverte, se emociona, chora, e ao final aplaude com gritos de “bravo” e com entusiasmo? Não será certamente porque a direção é confusa, porque não dá para descobrir quando Hamlet se faz de louco e quando não se faz, pois não fala em versos uma hora e em prosa outra.

Aliás, ao informar isso aos seus leitores que não conhecem a peça, ela deixa de dizer que são versos não rimados. Ou seja, versos que teriam que ser reconhecidos, quando ditos, pela métrica. Mas não é tudo. Falar em verso quando não se faz de louco não é uma regra absoluta na peça. Os lúcidos conselhos de Hamlet aos atores estão escritos em prosa. O monólogo de Hamlet com a caveira de Yorik, o bobo da corte, está escrito em prosa e Hamlet também não está louco.

Ora, esse critério pode ser no máximo tomado como uma indicação de Shakespeare aos atores, como se o autor dissesse: mostre a loucura de Hamlet com os recursos da sua arte, assim como eu também mostrei com recursos da literatura. E Wagner Moura demonstra isso extraordinariamente, dando vida a um Hamlet que vai da mais rasgada exaltação à mais fina inteligência.

Podia citar Peter Brook, que se celebrizou encenando Shakespeare, inclusive com a Royal Shakespeare Company. Diz ele: “Os acadêmicos põem o acento na diferença entre prosa e verso, eles insistem em respeitar a forma. Isso conduz a uma nova heresia chamada ‘apresentar o texto’ ou ‘dividir o texto com o público’. Sugere-se ao jovem comediante que seja uma espécie de apresentador dessas grandes palavras (…). Assim nasce o pior de todos os horrores: a voz shakespeariana”. (“Avec Shakespeare” edições Actes Sud-Papiers, prefácio de George Banu).

Barbara Heliodora diz que minha montagem não traz nenhuma novidade e seria perfeitamente tradicional a não ser por dois motivos: abandonar prosa e verso e excluir Fortimbrás. Pois nenhuma das duas atitudes é nova, muitas montagens já fizeram isso, se é por isso, minha montagem é perfeitamente tradicional.

E se penso numa tradição que vem diretamente do grande poeta, orgulho-me de segui-la. Mesmo a tradução não mantendo a métrica original, isto é, o pentâmetro, não recusou a linguagem poética, a poesia está lá, viva. Passou, sim, ao largo das tradições acadêmicas e do teatro sem ar, de que nos dá um pequeno exemplo John Gielgud, o notável ator shakespeariano, em suas memórias. A propósito de uma cena importante, diz lamentar que o público prestasse pouca atenção a ela, pois se representava diante da cortina e os espectadores “sabem que atrás se está preparando algo surpreendente e, subconscientemente, estão desejando ver o que será”. Nosso Hamlet é um Shakespeare puro, apoiado apenas em um pequeno banco, uma poltrona de vime, um pano que às vezes a cobre, um tapete como lugar sagrado e dessacralizado ao mesmo tempo, para liberar o jogo vivo, novo, renovado dos atores. Eles mostram um Shakespeare forte, presente, profundo e claro, ao mesmo tempo complexo e simples, poético sem afetação, enfim, como Shakespeare é, passando por cima das camadas de pó (a tradição má) para encontrar limpo o espelho que ele põe diante do homem da plateia e que o reflete (a tradição boa).

Um novo palco, livre de limitações, um velho marinheiro e uma excelente tripulação a navegá-lo é o que está oferecido ao público do Rio nesse “Hamlet”. Podia ser mais breve, bastando dizer que o enorme sucesso desse “Hamlet” é a extraordinária qualidade da peça, é Shakespeare, vivo. Melhor ainda, bastaria o texto da dedicatória: “À Barbara Heliodora, o Shakespeare que amamos fazendo o sucesso que quisemos sempre que fizesse. Com carinho, Aderbal”.