ADERBAL FREIRE-FILHO, O DEMOLIDOR – ENTREVISTA

Tribuna de Imprensa - Tribuna BIS
20 novembro 1992
por Christina Martins

É difícil saber ao certo qual a data exata de aniversário do Centro de Demolição e Construção do Espetáculo. Uns têm como marco o início dos ensaios da primeira peça, ‘A mulher carioca aos 22 anos’. Outros dão como ponto de partida a data da estréia – e são a maioria – que comemora os dois anos de atividade do Centro e a possível despedida do seu núcleo de trabalho do Teatro Gláucio Gil, no final de janeiro, quando expira o prazo concedido ao grupo pela Secretaria Estadual de Cultura para a ocupação deste espaço. Ao longo de dois anos foram 12 espetáculos produzidos, 24 peças de intercâmbio com grupos nacionais e estrangeiros, cinco demonstrações de trabalho, uma feira de livro e teatro e sete exposições. Fechando o currículo, a estréia de mais duas peças (veja box) e uma exposição sobre o crítico de teatro Yan Michalski, falecido há dois anos. No topo da administração do Centro, entre comemorações, recordações e antigos desentendimentos com órgãos do Estado, está o diretor e mentor intelectual do projeto, Aderbal Freire-Filho. Formado em direito e conceituado na área artística, o Centro foi mais do que um projeto: foi uma solução de vida para alguém que não sabia se dava prioridade ao seu lado artístico ou à própria sobrevivência.

 

TRIBUNA BIS – Como nasceu o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo?

 

ADERBAL – A sua criação está ligada a uma série de fatores. Eu mesmo no começo fazia questão de dizer que éramos um processo decorrente de razões circunstanciais – a volta do teatro coletivo – e a imediata, uma necessidade pessoal minha, de montar um trabalho de grupo.

 

Você sempre esteve ligado a grupos de teatro?

 

Não, daí a minha grande frustração. Meu início de carreira se dá justamente com a última peça do Teatro Oficina, por incrível coincidência no Teatro Gláucio Gil. Durante todos esses anos eu vivi uma ambiguidade entre o artístico e o comercial. Sempre tentei explorar esse lado coletivo, com algumas produções, sempre simulando a hipótese de um novo grupo estar se formando. Mas vinha a estréia, a temporada acabava e cada um seguia o seu caminho.

 

Você acha que a solução do teatro está na retomada dos espetáculos coletivos?

 

Tradicionalmente, o teatro brasileiro sempre foi uma organização coletiva. Veja o caso das grandes campanhas como a de Procópio Ferreira, Leopoldo Fróes e depois os grupos Arena e Oficina. O que aconteceu foi que, com a ditadura, com a proibição a tudo, esse tipo de espetáculo deixou de ser protagonista e com isso surgiram as produções individuais.

 

Essa retomada é algo cíclico?

 

De vez em quando leio nos jornais sobre a retomada dos grupos. Eles nunca morreram, sempre existiram. Só que não chamaram a atenção ou mereceram destaque. O próprio Moacyr Góes estava fazendo este trabalho. O Amir Haddad há 15 anos trabalha com um grupo e foi chamado de louco por largar o teatro comercial. Hoje, as mesmas pessoas que atiraram pedras elogiam a audácia do Amir.

 

Por que você demorou tanto tempo para colocar a idéia do Centro em prática. E como surgiu a idéia do Centro?

 

Depois de alguns anos vivendo nesta dicotomia entre o artístico e o comercial, fui para Montevidéu, onde conheci vários grupos de teatro e fiquei trabalhando junto com eles. Com o tempo, concluí que, ou voltava para o Brasil e aplicava essa minha experiência em proveito próprio ou seguia meu caminho fora do país. A partir daí, com a assistência do Marcos Vogel, nós fomos montando o Centro.

 

Vocês recrutaram pessoas?

 

A grande maioria veio por conta própria, adotou nossos princípios, acrescentou algumas ideias, discutiu outras e, no todo, fomos crescendo. Na primeira montagem, precisávamos de um apoio, por isso convidamos alguns atores, avisando sobre a ideia do centro.

 

Qual a influência do Centro na cultura carioca?

 

Dedicamos nossa energia na reflexão de todo processo do Centro. Isso se dá através de reuniões, manifestos, seminários e intercâmbios com grupos de outros estados e até países. É uma saída para saber o que está sendo feito lá fora.

 

Como se dá a escolha dos textos?

 

Por ser mais experiente, eu tenho um voto de peso. Mas tudo é sempre muito discutido em torno de temas, não em cima de textos. A primeira peça, ‘A mulher carioca’, foi um desejo meu de montar algo sobre João de Minas, um escritor meio desconhecido, de quem sou um especialista. Mas o principal era montar um espetáculo com excesso de palavras. Já o segundo, sobre Lampião, foi o grupo que decidiu, tendo como base o cangaço, sem ser do ponto de vista folclórico.

 

E como se dá a sobrevivência do Centro?

 

É cruel. O Centro de Demolição e Construção do Espetáculo sempre viveu do seu lema “A vontade como princípio da ação”. Quem decide quando e como começar somos nós, não as empresas patrocinadoras. A gente primeiro parte da ideia para depois correr atrás do financeiro. Tem dado certo, mas apenas para sobrevivermos. Não existe lucro nas nossas produções. Cada ator recebe hoje, em mês de casa cheia, a média de um salário mínimo. Os atores convidados já têm uma participação maior na bilheteria. A vantagem é que temos como benefício o próprio Gláucio Gil, que é nosso local de trabalho, ensaio, nossa base. Com ele, o custo de produção já fica bem reduzido.

 

E como fica o Centro, a partir de janeiro, sem o espaço do Gláucio Gil?

Eu acredito que apesar de toda a crise que passamos com a Secretaria Estadual de Cultura, a tendência é sempre caminharmos para o entendimento. Infelizmente se torna difícil continuar em um lugar com a obrigação de renovarmos nossa permanência de dois em dois meses. O tempo é muito curto e por causa dele nosso projeto de intercâmbio está adiado. Gostaríamos de discutir com as instituições uma forma de ocupação normal, porque aí sim nos interessaríamos em concorrer, mesmo que fosse com outros grupos. Ainda não temos nenhuma outra sede em vista, mas nossos espetáculos podem ser realizados ao ar livre ou mesmo em locais alternativos como o Museu da República, onde está sendo encenado ‘O Tiro que mudou a história’.

 

Entre tantos espetáculos, qual o seu preferido?

 

A menina dos olhos do Centro é o próprio Centro. Mas o trabalho que tem me chamado mais atenção é a peça ‘Turandot’, que estréia no fim do ano. Eu participei da tradução e tenho me dedicado integralmente a esse projeto. É uma forma de fechar com chave de ouro os trabalhos do Centro.