Jornal O Globo - Segundo Caderno
15 de Agosto de 2004
por Roberta Oliveira
O diretor Aderbal Freire-Filho usa o futebol como metáfora para mostrar o quão estapafúrdios são os argumentos que vêm sendo usados pelo Ministério da Cultura para embasar as mudanças que pretende fazer na Lei Rouanet.
– Dizer que é preciso reduzir o patrocínio das estrelas para incentivar a produção alternativa é o mesmo que investir nos times de futebol amadores e acabar com a seleção brasileira – compara Freire-Filho. – O que está acontecendo é uma caça às bruxas.
O diretor tem quatro bons motivos para provar que antes mesmo de as mudanças terem sido anunciadas, as empresas privadas têm segurado os patrocínios às artes cênicas. Por cronograma fechado no fim do ano passado, Freire-Filho começaria em janeiro os ensaios de perfeito cozinheiro das almas deste mundo”, de Martha Góes. Em seguida, viriam “Sangue”, do sueco Lars Norein, com Marília Gabriela e José Wilker; “A cabra”, de Edward Albee, com Deborah Bloch e Diogo Vilela; e “Quando nós os mortos despertarmos”, de lbsen, com Giulia Gam. Entretanto, um fator impediu que o futuro do pretérito se transformasse em presente: a falta de dinheiro.
Bilheteria não paga produção de espetáculo
- Resultado: vencedor, dois anos seguidos, do Prêmio Shell de melhor diretor com as peças “A prova” e “O que diz Molero”, só agora, passados sete meses do início do ano, Freire-Filho começou a ensaiar seu primeiro espetáculo de 2004. Trata-se de “Dilúvio em tempos de seca”, peça do jovem dramaturgo Marcelo Pedreira, que estréia no dia 9 de setembro no Teatro Dulcina com Wagner Moura e Giulia Gam.
– Não quero ser exemplo de nada, porque pode ter sido só um problema específico, pode ter gente trabalhando normalmente, mas é claro que, levando em conta o sucesso de “O que diz Molero”, os dois prêmios Shell e a qualidade dos projetos, podemos parar e pensar que sou um espelho de um ano de crise para o teatro – analisa o diretor, que faz questão de dizer que não está se queixando. – Estou duro, é verdade, mas tenho muito o que fazer com meu tempo.
Mesmo a ida a São Paulo de “O que diz Molero”, apesar do sucesso de crítica e público e dos prêmios – além de Freire-Filho, Orã Figueiredo recebeu o Shell por sua atuação no espetáculo – não foi simples de ser organizada. Foi preciso que um espectador conhecido, de quem o diretor prefere não dizer o nome, ficasse apaixonado pelo espetáculo e intercedesse pessoalmente junto a uma empresa para que “O que diz Molero” pudesse viajar. Mesmo assim, as passagens de avião, todas as despesas em São Paulo e o salário do elenco vêm sendo pagos com o dinheiro da bilheteria.
– A economia do teatro não permite que um espetáculo se sustente só com a bilheteria. O preço do ingresso costuma ser caro para quem paga e barato para quem vive dele. Se não há um patrocínio, não há como uma peça ficar muito tempo em cartaz – calcula Freire-Filho, que usa “Medéia”, espetáculo de Bia Lessa que ficou em cartaz até a semana retrasada no mesmo Dulcina para exemplificar sua teoria. – Os atores queriam continuar, as pessoas se estapeavam na porta para poder comprar ingresso e teve que sair de cartaz porque mesmo uma casa lotada não bancava a peça, e o dinheiro do patrocínio tinha acabado.
A dificuldade em fazer com que as contas fechem em teatro é o que leva Freire-Filho a não entender os argumentos do Ministério da Cultura, que cisma em bater na tecla de que a Lei Rouanet, como está, só favorece as estrelas, em detrimento do trabalho de pequenos grupos alternativos. Para defender sua posição, Freire Filho apresenta dois argumentos. Primeiro:
– As nossas estrelas não fazem teatro digestivo, fazem o melhor teatro do mundo, são elas que arriscam os novos diretores e os confirmam – defende Freire-Filho, que usa as estrelas com quem trabalhou para comprovar sua teoria. – Deborah Bloch e Diogo Vilela me procuraram para fazer “Tio Vânia”, de Tchecov; Ana Paula Arósio fez “Casa de boneca”, de lbsen, e Paulo Betti fez “O homem que viu o disco voador”, de Flávio Márcio, que hoje, se estivesse vivo, seria considerado tão bom ou melhor do que Nelson Rodrigues.
Diretor lembra que ministro também é estrela
- Segundo argumento:
– As estrelas não estão sozinhas num espetáculo, que é feito também de atores coadjuvantes, técnicos, contra-regras – lista o diretor, que volta a citar “Tio Vânia” para se explicar melhor. – Ao lado de Deborah e Diogo, eu tinha atores como Rogério Fróes, Ida Gomes e Bel Kutner, que vivem essencialmente de teatro.
Eleitor de Lula e defensor ferrenho do governo, Freire-Filho tem a impressão de que quem está no Planalto perdeu a visão da Planície.
– Se a gente acabar com o Pelé, quem vai querer ser jogador de futebol? – compara ele. – Se há distorções na lei, é claro que ela precisa ser revista, mas não desta maneira. Se uma política enfraquece esse time, está enfraquecendo as referências. Do que adianta incentivar as bases se se destroem as referências?
O que mais intriga Freire-Filho é como este pensamento possa vir de uma estrela de primeira grandeza como o ministro da Cultura.
– Parece contraditório uma estrela ser contra o patrocínio às estrelas – diz ele, que vem até trocando os CDs que tocam no seu som. – Gosto de Gil, mas, no momento, gosto mais de Caetano. Ele não tem medo nem se sente culpado de ser uma estrela.■