DESMOULINS, NOSSO PATRONO

O Pasquim
Ed. 418 - ano: 1977
Aderbal Junior

– “Deixa-o, deixa-o que cumpra a sua missão; ele salvará a pátria e os que pensam o contrário não irão saborear do meu chocolate.”

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O historiador, filósofo e escritor Julio Michelet, estando a seu cargo a seção histórica do Arquivo Nacional, em Paris, desde 1830 até 1851, dedicou-se ao estudo e classificação dos documentos da Revolução Francesa. Estava portanto bem documentado quando chamou o jornalista Camilo Desmoulins, guilhotinado junto com Danton no período do terror, de moleque e malcriado.

Acho que, entre nós, a crônica deste moleque é consideravelmente pobre, fato que me parece lamentável quando uma certa imprensa, dita nanica, procura usar as armas da malcriação para abalar a monarquia, dita outra coisa qualquer. Não é certo que a grande imprensa está, continuamente, citando Gutemberg? (Citação que sempre me evocou Gutemberg Tels, honrado comerciante da minha terra que, com o dinheiro gasto em propaganda de rádio numa época em que a publicidade ainda não era acreditada como hoje, fez tanto pela imprensa falada do Ceará quanto seu homônimo pela imprensa escrita do resto do mundo).

Penso – previno que não entendo muito dessas coisas de imprensa e de família – que Camilo Desmoulins poderia ser um bom pai para a nanica. A proposição, feita assim, abala um pouco as minhas convicções românticas, pois admiro a ternura que uniu Camilo a sua bela companheira, Lucília Desmoulins. De um casal que, para a minha fantasia, tem uma dimensão quase mitológica eu só esperaria filhos robustos, corados e, se não gigantes, pelo menos de boa estatura. Corrijo a frase: Camilo Desmoulins, jornalista francês da época da revolução, seria um bom pai para a imprensa satírica, moleque, espirituosa, malcriada, ou mesmo nanica. E se alguém insiste em que a sugestão implica em designar Lucília como mãe dessa mesma imprensa eu, impotente para conter as associações de mentes tão condicionadas, acrescento que a bela companheira de Camilo também foi guilhotinada, uma semana depois do amante, acusada de ter conspirado para a sua fuga da prisão.

Sugiro pois esse outro móvel (a guilhotina) para substituir a cama na imaginação dos que ainda, certamente, vão precisar de um ato gerador para conceber essa criança. Sem dúvida, as cabeças decepadas de pai e mãe, num imaginário fundo de cesto, são imagens mais fortes e bastante dignas para esta paternidade.

Para quem, em matéria de jornalista francês, só ouviu falar de Chateaubriand, fundador dos diários e rádios associados, eu anuncio, aos primeiros acordes de O Guarani – o prefixo que identifica para o país e para o mundo as emissoras associadas do Brasil – Camilo Desmoulins!

Foram seus jornais: Revolutions de France et de Brabant e Le Vieux Cordelier.

O primeiro existiu no começo da revolução; antes ele já escrevera o panfleto France Libre (“não éramos, então, mais de dez republicanos em toda a França”, diria depois Desmoulins, parafraseando Dias Gomes).

Para dar uma idéia do espírito e da disposição do seu redator, transcrevo o anúncio de renovação de assinatura do jornal:

 

“Estava tentado a deixar a pena desencorajado pela sordidez de um povo ingrato que apenas compra um periódico. Mas reverdece em mim a esperança e constituo o meu diário em diário permanente. Convido os meus queridos e amados subscritores, cuja assinatura expira, a renová-la em minha casa, à Rua do Teatro Francês, onde continuarei cultivando um ramo de comércio desconhecido até hoje: a fabricação de revoluções.”

 

Camilo Desmoulins era capaz de descobrir instantaneamente o ponto fraco dos seus adversários e tinha o grande talento de saber usar essa descoberta para levá-los ao ridículo. No seu primeiro jornal, denunciou sobretudo o perigo que representavam os reis: “os reis gostam do sangue dos povos; é sabido que os cavalos de Diomedes, tendo provado uma vez carne humana, não quiseram comer outra coisa”.

Se a imprensa da revolução francesa teve em Desmoulins o seu espírito mais irreverente era, por outro lado, rica em espíritos brilhantes e combativos. Talvez venha dessa época o compromisso do adjetivo combativo com a categoria profissional dos jornalistas. Aqui minha intenção é apenas introduzir nesta notícia o confrade Marat, dono de um jornal que se chamou L’Ami du Peuple.

Camilo e Marat, cordeliers dos antigos (daí, alguns anos depois do começo da revolução, o nome Le Vieux Cordelier), discutem na Sociedade dos Amigos dos Direitos do Homem (para os íntimos, Clube dos Cordeliers), de onde eram sócios:

 

MARAT – Eu disse há três meses que havia seiscentos culpados e que bastavam seiscentos pedaços de corda para acabar com eles. Como eu estava enganado! Hoje necessitamos enforcar mais de vinte mil.

 

CAMILO – Sempre trágico, amigo de Marat: hipertrágico por costume. Poderíamos reprovar-te como os gregos a Ésquilo, de ser um pouco ambicioso na arte de meter medo. Mas tu tens uma desculpa: tua vida errante nas catacumbas, como a dos primeiros cristãos, exalta a tua imaginação. Mas diz-nos seriamente: essas dezenove mil e quatrocentas cabeças que tu acrescentas às seiscentas de outro dia, são realmente indispensáveis? Não estarás enganado na conta, ainda que seja só em uma cabeça? Eu acreditava que com três ou quatro cabeças empenachadas que rodassem aos pés da liberdade já seria bastante.

 

Esse diálogo entre o porta-voz oficial do L’Ami du Peuple e o porta-voz do Le Vieux Cordelier, sugere, pelo estilo do segundo (aliás, porta-voz e voz), Le Vieux Cordelier como respeitável ancestral d’O Pasquim e congêneres.

E L’Ami? Bastaria que eu o apontasse como precursor da revista Amiga para ser possivelmente morto e esquartejado. Então já não basta que esteja tratando como um ser humano, vítima das suas contradições, um mito intocável – Saint-just – numa peça sobre a liberdade que está aí sob a cidade?

Não basta esta audácia para abalar os cuidadosos das suas sabedorias e os ignorantes e atrair a fúria de uns outros?

Não sei o que se pode esperar dos que tem medo da discussão; lembro que o Clube dos Jacobinos e o Clube dos Cordeliers não tinham nada a ver com a Associação Cristã de Moços.

Quanto ao jornal de Marat, por justiça, retiro a sugestão. Apesar do nome – L’Ami du Peuple – a associação com a debochada revista nem por isso procede, já que, à época, o povo ainda não se dedicava com sofreguidão a ver televisão (rima pobre).

Sinto que estou fugindo aos meus propósitos e quase me afasto do único motivo desta notícia.

Aqui eu vim para apresentar Camilo Desmoulins, que me parece um legítimo patrono dos jornalistas cuja arma principal é o espírito (drôleries).

Na verdade, os tempos mudam e algumas diferenças aparecem. Mas basta um pouco de perspicácia para ver as semelhanças entre façanhas aparentemente tão diferentes praticadas por jornalistas da mesma família, como tirar a roupa de uma burguesinha e tirar a cabeça de uma rainha.

Se nos excita mais a atitude dos Desmoulins modernos, consola-nos ainda a certeza de que assim evitam morrer, eles também, na guilhotina. E a esperança de que se Desmoulins, em vez do que fez, tivesse apresentado uma edição especial de Le Vieux Cordelier com Maria Antonieta nua, a História seria outra. Quem sabe, melhor.

Convido a imprensa e o povo em geral para, de alguma forma, nesses tempos, prestarmos um tributo à memória de Camilo Desmoulins. Seja com um brinde consternado (pouco gelo e limão), breves discursos, solenidade simples, seja comprando O Pasquim, Le Vieux Cordelier das nossas batalhas, seja indo ao seu encontro debaixo da terra (A Morte de Danton, no metrô, da Rua do Catete).