DE COMO UM JORNAL…

De como um jornal moderninho tenta enganar a todos todo tempo

O Pasquim
Ed. 848 - ano: 1985
Aderbal Junior

Eu não gostei de “O Corsário do Rei”, assim como alguém não gostou de determinado espetáculo meu, assim como ninguém é obrigado a gostar de nada, assim como eu gosto de futebol. E se alguém estiver interessado nas minhas opiniões, que, por sinal, não valem grande coisa, é só me perguntar, porque eu ando e eu falo. Como acontece com todo mundo, os meus pensamentos e os meus sentimentos estão juntos em tudo o que eu digo. Mas sou dos que pensam que, para compreender melhor o mundo, falar e ouvir é sempre bom, e nada me garante que é melhor ficar dentro de um buraco do que a sol aberto. O poder da imprensa é, no entanto, manipulador, e, quando falamos através dela, muitas vezes as nossas opiniões podem ser transformadas. Macksen Luiz convidou um historiador, um músico, uns artistas de teatro, para um debate sobre “O Corsário Rei”. Na hora do debate eu soube que a maioria tinha desistido depois de ver a peça. Quem está mais perto do reino do céu-inferno?

Acrescento que sou amigo pessoal e admirador de quase todos os que fizeram esse espetáculo e ia debater também com os compromissos desse afeto. No entanto, quando vi as partes publicadas do debate, vi uma vez mais que uma coisa é o risco de falar direto para os interessados na opinião e outra é o risco de ter intermediários. A primeira coisa proposta foi que, como havia um desagrado geral, o melhor era falarmos pouco do espetáculo e depois conversarmos, de forma mais abrangente, sobre política cultural e teatro. E antes de cada um dizer as razões por que não gostou de “O Corsário Rei”, eu disse, e todos concordaram comigo, que nós preferíamos estar lá para debater sobre uma peça de que nós tivéssemos gostado, e, especialmente, que seria melhor se nós tivéssemos gostado daquela. Como artista-crítico prefiro falar do que eu gosto, porque assim posso fazer reflexões com menos riscos de que interpretem as minhas opiniões para dividir um setor carente de ser unha e carne. Por isso, o desvio de assunto que foi proposto me interessou muito.

Neste momento de discussões da relação entre a cultura e o poder o meu interesse principal é chamar a atenção para a separação entre o social e o cultural, que interessa ao poder. Para mim, esse passou a ser o tema principal. A introdução desse tema veio em seguida: alguém disse que o dinheiro do “Corsário” poderia ter sido aplicado em muitas produções. Eu respondi que se não tivesse o “Corsário” não teria esse dinheiro, que o problema não é dinheiro, o problema é a atenção que se dá à cultura. Isto é, não existe preocupação alguma do governo com cultura, que é sempre uma área desprezada. E alguém perguntou: mas você não acha mesmo que existem questões prioritárias, resolver o problema das favelas, por exemplo? No gravador do Jornal do Brasil está gravado com minha voz que, hoje, o significado trágico da palavra seca (a seca do Nordeste) não tem nada a ver com o fenômeno da natureza que ela identifica. Quando se estabelecem prioridades que excluem a cultura, não se está privilegiando as vítimas da seca: a prioridade é a conquista do poder através da exploração da seca e das vítimas da seca.

A solução de um problema que deriva de um fenômeno secular passa ou não pela questão cultural? No entanto, quando foi editado o texto do debate, só se recuperou, de todas as coisas que a partir daí foram ditas sobre o tema da relação entre o poder e a cultura, uma única frase, a última da matéria, e assim mesmo incompleta. Ali eu concluía que todos os governos são maus na sua relação com a cultura. E insistia em que o problema básico é a separação, é dizer, por exemplo, que teatro é cultural. Cultura é o público, eu gritei isso alto no ouvido do gravador (e o teatro vem do público). A discussão dessas idéias é que foi especialmente fervorosa, mas, ao lado da minha foto puseram uma frase em que eu chamo o espetáculo de porcaria. Quando a palavra porcaria entrou no jogo, posta não por mim, e posta no calor do debate sobre o poder, eu completei que a questão não era essa, mas o jogo de interesses políticos. É, portanto, injusto, me atribuir o uso desse adjetivo para qualificar “O Corsário do Rei” e ainda dar destaque a isso.

Lamento que não tenha sido ouvida a recomendação do Macksen Luiz, também gravada, para dar mais ênfase ao debate sobre política cultural. Mas eu também quero que fique claro: eu sou responsável por tudo o que realmente disse e estou pronta a aceitar todas as acusações que pesem sobre os meus julgamentos. O que me reprovo, especialmente, é não ter desistido do debate logo que vi que Augusto Boal, o artista posto em questão, não ia participar dele. E até adoto o adjetivo que puseram na minha boca, num contexto espantoso também para mim, para usá-lo mais generosamente. Nas circunstâncias políticas da cultura brasileira, porcaria são todos os espetáculos, aqueles de que gostamos e os de que não gostamos, todos os espetáculos que nós, artistas, postos à parte da sociedade, fazemos, enquanto os que têm o poder insistem em separar o social do cultural. E, finalmente, quero recomendar “O Corsário do Rei”, um espetáculo de que muita gente gosta (no dia em que vi ele foi aplaudido de pé, isso eu também disse na gravação). Eu não tenho nenhum poder sobre a opinião de ninguém e quero recomendar também os meus espetáculos contra todas as opiniões de quem não gosta deles.