CULTURA NO PODER

Jornal do Brasil - 23/09/2006
Caderno B
Aderbal Freire-Filho

Primeiro eu quis recusar. Mal sei fazer o meu teatro, por que vou me meter a fazer um jornal? Aí me prometeram todo o suporte. Bom, aceitei. Depois quis desistir, já era tarde. Então, comecei a achar um barato. Mas muito, muito difícil. Pedi um texto ao Domingos de Oliveira, e ele citava nomes da cena política real. Eu disse: “Domingos, não queria citar ninguém, nem contra, nem a favor, queria ficar no campo da fantasia”. Pronto, entrei num jornal e a primeira coisa que fiz foi acabar com a liberdade de imprensa. Depois, compensei. Muita gente ouvida sobre a proposta do caderno deu opinião contra. Ficou. Gente dizendo que lugar de poeta não é o poder. Não disseram isso ao Leopold Senghor, ao Neruda (foi candidato a presidente do Chile), nem ao prefeito Graciliano Ramos. Mas está bem, é só uma brincadeira, um jeito de inventar uma nova política, por versos tortos. Só um jeito de mexer, uma agitação.

O centro da coisa era escolher o presidente. Ou o rei. Pois fiquei em dúvida sobre o regime, acho que sou monarquista, meu tataravô foi senador do Império. Aliás, descobri que a redação ainda é o último reduto da cortesia imperial, fui recebido como um príncipe. A redação viu sorrindo aquele intruso sendo fotografado por lá (ou seria rindo de mim?). E a cortesia dos cronistas e dos colunistas, tapete vermelho, quando podia ser cartão vermelho.

Cada vez que eu vacilava, o que me animava era o entusiasmo do pessoal do JB. Um dia fiz uma reunião com editores e diretores, botei até uma camisa para não ir de camiseta, e depois vi que nem precisava dessa roupa séria. Me deixaram inteiramente à vontade, todos felizes com a edição.

Voltando ao protagonista. Decidi pela república e pensei em fazer uma eleição. Mas já nos primeiros votantes vi que não dava para explicar direito, os votos eram quase sempre contra a eleição. Decidi usar o meu poder discricionariamente e fazer do meu candidato o presidente. O grande Amir Haddad, um feiticeiro, o mestre, um poeta dos palcos. Fomos fazer as fotos no Palácio do Catete, que também nos recebeu principescamente, mesmo no Museu da República eles são monarquistas.

Pena que um editor não tenha tempo de estar em todas. Perdi o hasteamento da bandeira do Tunga, esse ato histórico, que vai entrar para os livros de História do Brasil. Eu já estava felicíssimo com a presença do Tunga nessa utopia.

Sou um editor ciclotímico, alternando certezas e dúvidas e as consequentes excitação e deprê. Mas quando chegava uma colaboração nova, me animava. Me lembro de algumas grandes forças. Uma, quando recebi a crônica da Marina Colasanti. A Marina fechou magistralmente a página dos brasileiros, que o Fausto Wolff inspirou. Adoro o romance À mão esquerda do Fausto e sabia que ia buscar nele, como busquei, uma ponte para chegar ao Brasil.

Outra grande força foi quando o Carlinhos Brown se animou com a ideia. Carlinhos tem um faro incrível e, se ele se animou, eu estava no caminho certo. Carlinhos está numa fase pintor, inspiradíssimo, animadíssimo. Ele pintou uma bandeira exclusiva para o B.

Quando comecei a formar a seleção já sabia que ia jogar com Alcione e Domingos no ataque. Conheço alguns de seus pensamentos sobre cultura, educação e arte e achei que eles iam dar o tom da discussão nessas áreas.

Fausto Nilo foi meu companheiro na geração Praça do Ferreira, em Fortaleza, que me inspirou na invenção dessa utopia. Foi um barato contar com o Fausto, juntou as pontas.

Os colunistas também entraram na brincadeira, com o maior espírito revolucionário. A Hilde dedicou sua coluna à alta-sociedade das letras, a Heloisa Tolipan cercou as gentes da edição e a Norma trouxe os paulistas, antes que eles fizessem uma revolução e nos derrubassem.

E pra armar tudo isso eu precisava de parceiros. Aí contei com o Fábio e o Bleque, com quem venho batendo uma bola nas programações visuais dos meus espetáculos e que são do barulho. Contando então com o apoio e a boa-vontade do pessoal da arte da casa, deu pra fazer tudo que a gente quis. E enfim, o Fábio e o Bleque é que são os caras dessa edição.

Outro parceiro fundamental, foi o Bóris, o homem é fogo! Nem vou falar dele aqui. Só adianto que é o maior brasilófolo do mundo. E como se não bastasse, o extraordinário Nani conseguiu desenhar o Bóris como ninguém conseguiria.

Agora só tenho duas saídas. Ou volto pro meu teatro enriquecido por essa experiência, ou largo tudo e entro para uma faculdade de jornalismo. Meu sonho é ser colunista político no governo do presidente Amir Haddad.