CARTA DO URUGUAI

Jornal do Brasil - Caderno B
31 de Agosto 1997
Aderbal Freire-Filho

(Cenas do teatro de variedades do Mercosul)

Um dos assuntos mais comentados em Montevidéu, nestes dias, foi o papelão do presidente Frei, do Chile, que não quis receber a chave da cidade para não ter que ouvir o discurso do presidente da câmara de vereadores. Dizem que Frei ficou com medo de ouvir qualquer alusão a Pinochet, porque o vereador, nos discursos que fez em solenidades semelhantes, diante dos presidentes da França e do Brasil, tocou em assuntos desagradáveis para suas excelências. Para Chirac, por exemplo, a tradutora ficou sem graça quando teve que explicar que os uruguaios não iam lamber “no sabia que cosa” do presidente que autorizou as experiências atômicas. Foi a parte, digamos, mais pitoresca do discurso do agora famoso vereador Zabalza, que pertence à frente ampla de esquerda. E FH teve que engolir os sem-terra em um país estrangeiro, onde ainda costuma passar por social democrata. Um jornalista do semanário Brecha, Marcelo Pereira, escreveu um artigo delicioso resumindo todo o episódio bufo-diplomático, tomando cuidado de não violar a lei uruguaia que, segundo suas palavras, “nessa terra de liberdade, protege zelosamente a honra dos mandatários estrangeiros”, lei que levou recentemente à prisão dois jornalistas acusados de ferirem a reputação do presidente Wasmosy, do Paraguai. Por isso, cuidadosamente, Pereira diz que o excelentíssimo senhor presidente da república irmã (o presidente Frei) esteve “algo tontito, un poquitin desubicado, ligeiramente ridículo”. Embora, quando se refere depois a Pinochet, e alegando que a defesa da sua “inexistente”honra cessou com sua saída do poder, aproveite para dizer que os jornalistas uruguaios já podem chamá-lo de uma besta quadrada.

Enquanto isso, Manuel Espínola Gomez, um dos maiores pintores do Uruguai, um país de pintores – Blanes, o clássico, Figari, Barradas, e o maior de todos, Torres-Garcia – vê a vida passar sentado numa mesa de bar. São duas horas da madrugada, o bar da esquina da avenida 18 de julho é dos poucos lugares abertos, e Espínola Gomez está sozinho numa mesa ao lado da porta de entrada e tem pouco para ver, pois apenas alguns táxis passam lá fora, e uma ou outra pessoa anda pelas calçadas. Só a riqueza da imaginação de um pintor pode dar movimento a esse quase nada. A cena parece do começo do século: um pintor com uma cabeleira que faz lembrar a de Villa-Lobos, sozinho, numa mesa de um bar envidraçado, olhando a rua, no meio da madrugada. Mas já é véspera do século 21, embora em Montevidéu essa cena não seja única com esse ar de anos 20, 30. A própria vida desse pintor é difícil de imaginar no mundo vendedor e comprador de hoje: Espínola Gomez não gosta de vender seus quadros, que vai pintando e guardando, ao contrário do ritmo comum de produção na sociedade de mercado, isto é, ir cagando e andando. Hoje é dono de um tesouro, e o governo vem de lhe dar uma casa ali embaixo, na Calle Paraguay entre Canelones e Maldonado, para guardá-lo. Os poucos quadros vendidos, ele sabe onde estão, e fala deles como filhos fujões, tal quadro na casa de fulano, tal outro na de beltrano.

Entro nesse bar com alguns amigos a essa hora da madrugada para sair um pouco do velório de uma atriz da Comédia Nacional que foi encontrada morta, hoje à tarde, no seu apartamento, onde vivia sozinha. Seu nome é Marina Sauchenko e estava há mais de 30 anos nessa companhia teatral, que me traz aqui para dirigir um espetáculo na programação que comemora seus 50 anos. Um velório em Montevidéu é meio ao estilo norte-americano, uma casa funerária onde os mortos são velados em apartamento com duas ou três salas, banheiros e um quarto para o protagonista assim, pois não ocupa mais o centro da solenidade. Fica esperando nesse quarto aqueles que vêm lhe fazer companhia, alternadamente, pela última vez. Essa em todas as letras, sem pudor do negócio de encaixotar e enterrar (ou queimar) mortos. Em toda parte está também a assinatura do presidente da empresa, Rogélio Martinelli. É tudo muito asséptico, funcionários de terno e gravata que abrem as portas para os convidados, limpam os cinzeiros e que parecem recepcionistas de hotel. Tudo muito mais limpo e bem cuidado do que nossas capelas de cemitérios, com cristos pendurados em paredes sujas, a esculhambação nacional até na hora da morte.

No velório, estou conversando com Hector Manuel Vidal, atual diretor artístico da Comédia Nacional, quando se aproxima Luis Cerminara, Cavaleiro de França, também diretor de teatro, e diz que Marina era uma atriz hollywoodiana, sua solidão era parte da imagem de diva de uma outra época. Eu quase não a conhecia. Das outras duas vezes que dirigi a Comédia Nacional ela foi das poucas que não trabalharam comigo. Da primeira vez, estava em Paris fazendo um estágio. Era muito sedutora, acrescenta Cerminara, tomou-se de amizade por um conhecido diretor francês, corresponderam-se depois por um ano. Mas, à parte a fantasia de Cerminara, que é natural no diretor que provocou tanto o teatro uruguaio nos anos 70, 80, quando montou aqui Ionesco e outros autores do absurdo. Marina Sauchenko era uma atriz de bela carreira, da segunda geração da Comédia Nacional, onde estreou em 1965, quando a companhia ainda não tinha completado 20 anos. E a primeira geração ainda estava em cena, com todos os atores formados por Margarida Xirgu, a grande atriz espanhola para quem García Lorca escreveu muitas das suas peças.

Agora é outro dia e se o velório é à americana, o enterro é à antiga. Cinco Mercedes negras, cada uma guiada por seu chauffeur de uniforme, quepe azul e luvas, atravessam a cidade, seguidas pelos muitos carros dos amigos, indiferentes ao trânsito, que se ainda não é o caos carioca, já não é a doce paz da primeira vez que vim aqui, há quase 15 anos atrás. Participando desse cortejo, me dou conta de que esta é, tristemente, a primeira cerimônia do aniversário da Comédia Nacional. Sendo uma companhia de teatro, o sentimento trágico não está fora de contexto. Numa curva vejo que no paralama do sofisticado coche fúnebre está lá, em letras douradas, a assinatura Rogélio Martinelli. É um empresário que se orgulha do seu ofício. E com razão, pois aqui é tão famoso quanto Caronte, que faz o resto do caminho, depois que Martinelli lhe passa o viajante.

À noite, the show must go on, o de sempre. Vamos ensaiar na Sala Verdi, uma das três casas da Comédia Nacional. Antes do ensaio, me reúno com minha equipe, o compositor Coriún Aharonian o cenógrafo Cláudio Goeckler, o figurinista Carlos Pirelli e meu assistente Sergio Blanco. Num café, para não perder o hábito (no meu caso para ganhar, outra vez), quase em frente ao teatro, na esquina de Rio Branco e Soriano. Já trabalhamos juntos outras vezes e somos como velhos amigos.

Finalmente, do meu quarto no hotel, olho para o Rio de la Plata, bem diante da minha janela, o rio que deu nome ao país que está do lado de cá, que em algum momento pensou em chamar-se Argentina do Norte. Mas acabou escolhendo outro rio, o Rio Uruguai e em relação a ele se situou a República Oriental do Uruguai. Como agora trocamos mercadorias em geral, mando esta carta, um pouco ao estilo das Carta de Marrocos, de D. José Cadalso, pensando nas possibilidades de trocar arte. Mesmo sabendo que nunca podemos conhecer tanto esse lugar como conhecemos nossos bairros, Manhattan, por exemplo.

 

Aderbal Freire-Filho é diretor de teatro e está em Montevidéu para dirigir um espetáculo da Comédia Nacional