Teatro Poeira

O surgimento do Teatro Poeira está ligado à sólida amizade firmada entre Marieta Severo e Andréa Beltrão. Um vínculo que começou quando trabalharam juntas, em 1989, em A estrela do lar, de Mauro Rasi. A parceria se estendeu no teatro – em A dona da história, de João Falcão, em 1998 – e na televisão – no seriado A grande família. E culminou na sociedade que estabeleceram para inaugurar o Poeira, em 23 de junho de 2005, numa aprazível casa em Botafogo – uma construção de 1927, com a fachada tombada. Ali criaram um teatro aconchegante, de 180 lugares divididos em dois andares, batizado com nome que remete à tradição do cinema poeira, expressão que diz respeito às antigas salas de projeção espalhadas pelos bairros.

Desde o início, o Poeira teve um terceiro integrante – Aderbal Freire-Filho, convidado por ambas para exercer a curadoria do espaço. José Celso Martinez Corrêa, encenador emblemático na história do teatro brasileiro, fez a palestra inicial. A escolha para o espetáculo de estreia foi ambiciosa: o denso Sonata de outono, transposição do roteiro do célebre filme de Ingmar Bergman, de 1978, centrado no conturbado elo entre mãe, a pianista Charlotte (personagem interpretada por Marieta), e filha, Eva (personagem de Andréa), que, depois de sete anos de afastamento, se reencontram e dão vazão a um acerto de contas passional. No elenco da montagem de Aderbal, o papel de Viktor, marido de Eva, ficou com Isio Ghelman.

No Poeira, Aderbal reuniu o vasto mundo de Campos de Carvalho, em O púcaro búlgaro, sua terceira experiência com o romance-em-cena. Publicado em 1964, o livro, sobre uma expedição organizada para confirmar a existência da Bulgária, desembarcou no palco com os integrantes do elenco transitando entre personagens distintas e entre a narração e a vivência dos acontecimentos ao longo de 40 cenas.

Marieta e Andréa se reencontraram em cena, sob a condução de Aderbal, num projeto contrastante em relação à Sonata de outono. Foi em As centenárias, peça encomendada a Newton Moreno. As duas interpretaram as carpideiras Socorro e Zaninha entre 1921 e 2006 – quando a primeira completou 116 anos e a segunda, 111. Coube a Savio Moll representar a Morte e a Mulher de Luto. A cenografia de Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque foi composta por alguns tipos de bonecos, muitos simbolizando os demais personagens da história: os de espuma, as máscaras, os mamulengos, de madeira esculpida (de Mestre Tonho), os de pano e os maiores, de tecido, com mais de um metro de altura, à imagem e semelhança das atrizes (criados por Miguel Vellinho). Cerca de 240 mamulengos decoraram a parede de fundo do palco. Sete bonecos foram utilizados em cena como defuntos.

Aderbal concretizou uma empreitada de fôlego, que lembrava o romance-em-cena, mas não integrou essa vertente pelo fato de o diretor ter feito cortes no livro caudaloso: Moby Dick, de Herman Melville, sobre a obstinada perseguição do capitão Ahab a Moby Dick, o cachalote que arrancou uma de suas pernas. Além dos cortes em capítulos descritivos, Aderbal inseriu diálogos imaginados e articulações com obras de autores como Edgar Allan Poe (Arthur Gordon Pym) e Castro Alves (O navio negreiro). Aderbal também optou por um livro bem mais dramático que os anteriores – A mulher carioca aos 22 anos e O que diz Molero –, levados ao palco no formato do romance-em-cena.

Em 2008, Marieta e Andréa realizaram nova ousadia. Compraram e reformaram a oficina mecânica vizinha ao Teatro Poeira e transformaram num espaço cênico, o Poeirinha, que inauguraram em 2011 com o solo de Aderbal – Depois do filme – que retomou seu personagem, Ulisses, no filme Juventude, de Domingos Oliveira. Foi fundamental para Aderbal, que, às vésperas de completar 70 anos, resgatou duas funções artísticas: as de dramaturgo e, principalmente, de ator. O trabalho como ator remeteu à sua trajetória profissional nas décadas de 1950 e 1960, no Ceará e no Rio de Janeiro, quando atuou em variadas montagens, dentro e fora de grupos. Aderbal, que havia atuado pela última vez 11 anos antes – em Isabel, peça de sua autoria, em encenação a cargo de Domingos –, não se limitou a interpretar um personagem, mas se revezou entre 11 num verdadeiro tour de force. Texto com inspiração autobiográfica, ainda que ficcional, Depois do filme abordou um ator com dificuldade de abandonar seu personagem após meses de convívio e destacou questões delicadas, como o envelhecimento e a crescente proximidade da morte.

Aderbal seguiu assumindo desafios ao conduzir um espetáculo de dança – Caprichosa voz que vem do pensamento, que trazia em cena uma bailarina – Maria Alice Poppe – e um pianista – Tato Taborda, casados na vida real. Os dois interferiam fisicamente no trabalho um do outro em proposta performática que valorizou diferentes manifestações artísticas e referências. A encenação conjugou dança e teatro e dialogou com a literatura, o rádio-teatro e o circo.

A música continuou presente no espetáculo seguinte dirigido por Aderbal: Jacinta, peça de Newton Moreno, que, durante o processo de ensaios, se tornou musical a partir da inclusão de canções do titã Branco Mello, diretor musical da montagem. Andréa Beltrão incorporou a personagem-título, tida como a pior atriz do reino de Portugal no século XVI, que, ao atuar pessimamente num texto do dramaturgo Gil Vicente, causou a morte da rainha D. Maria. Antes de morrer, porém, D. Maria ordenou que matassem Jacinta. Degredada para o Brasil, Jacinta manteve sua tenacidade e não desistiu do próprio sonho.

A comédia e a música cederam espaço para a contundência da tragédia contemporânea em Incêndios, peça do libanês Wajdi Mouawad transportada anteriormente para o cinema pelo diretor canadense Denis Villeneuve. Aderbal assinou a montagem, com Marieta Severo no papel principal de Nawal Marwan, uma mulher que, ao morrer, deixa para os filhos gêmeos a missão de entregar uma carta ao pai, que ambos julgavam falecido, e a um irmão que nunca conheceram. Interpretando Nawal, uma personagem diretamente afetada pela brutalidade da guerra, em três fases (na juventude, aos 40 anos e aos 60), Marieta evocou uma realidade, também bastante violenta, que vivenciou – a da ditadura brasileira – e dedicou o espetáculo à estilista Zuzu Angel, morta em sua incansável busca pela verdade sobre o assassinato do filho, Stuart. Depois de Incêndios, Aderbal voltou a dirigir uma peça de Mouawad – Céus –, em montagem sobre uma equipe de investigadores que, fechada num bunker, não mede esforços para impedir um atentado terrorista em diferentes cidades. Os dois textos fazem parte de uma tetralogia de Mouawad intitulada Sangue das promessas.

Como se não bastassem os espetáculos que dirigiu, Aderbal criou, no Teatro Poeira, importantes intercâmbios artísticos. O Programa Ponte Aérea possibilitou a troca de experiências entre profissionais do Rio de Janeiro e artistas de diversas cidades – os diretores José Celso Martinez Corrêa, que, durante décadas, permaneceu à frente do Teatro Oficina, Antonio Araujo, fundador da companhia Teatro da Vertigem, e Marcio Meirelles, criador do Bando de Teatro Olodum; os atores Luis Melo, que abriu o Ateliê de Criação Teatral, Chico Pelúcio, integrante do Grupo Galpão, e Cacá Carvalho, colaborador da Fondazione Pontedera Teatro; os atores e diretores Carlos Simioni, do Grupo Lume, e Luiz Carlos Vasconcelos, celebrado como o Palhaço Xuxu e parceiro de trabalho do Grupo Piollin; e o atuador Paulo Flores, um dos idealizadores do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz.

No Programa Artista Residente, um diretor convidado tinha liberdade para oferecer, no decorrer de três meses, seminários, oficinas, workshops, leituras e proposições cênicas experimentais. Foram artistas residentes os diretores Amir Haddad, Christiane Jatahy, Daniel Herz, Gilberto Gawronski, Hamilton Vaz Pereira, Ivan Sugahara, Jefferson Miranda, Luiz Artur Nunes, Moacir Chaves, Ron Daniels e Victor Garcia Peralta, os atores Emilio de Mello e Silvero Pereira (em parceria com Jezebel de Carli, diretora da encenação de BR Trans), a atriz Mariana Lima, o ator e diretor Enrique Diaz, o cineasta Ruy Guerra, o coreógrafo João Saldanha, o cenógrafo Fernando Mello da Costa e a artista e pesquisadora Maria Borba. Já o Programa Artista Visitante consiste na troca de experiências com artistas heterogêneos, que abordam seus processos de criação no trabalho prático da cena teatral. Passaram pelo Programa o dançarino de butoh Tadashi Endo, os diretores Gerald Thomas, Miguel Vellinho, Sergio de Carvalho e Thomas Quillardet, a diretora Ana Kfouri, as atrizes Analu Prestes, Carolina Virgüez, Fabianna Mello e Souza e Miwa Yanagizawa, os atores Claudio Baltar, Marcio Libar e Savio Moll, a dramaturga Adriana Falcão, o escritor Geraldo Carneiro, o cenógrafo Helio Eichbauer, a figurinista Kalma Murtinho, o iluminador Aurelio de Simoni, a coreógrafa Cristina Moura, a diretora de movimento Marcia Rubim, a psicanalista Cecília Boal, o professor Pedro Süssekind, a professora Jacqueline Gimenez, o músico Tato Taborda (junto com a bailarina Maria Alice Poppe) e o apresentador Felipe Khoury.

Aderbal concretizou ainda o Programa Puente, trazendo ao Rio de Janeiro artistas de países diversos para a realização de seminários e oficinas de dramaturgia, a exemplo dos ministrados pelos dramaturgos José Sanchis Sinisterra e Marco Antonio de la Parra. Participaram do Puente os encenadores Eugenio Barba, François Kahn, Gerald Thomas, Héctor Vidal, Ludwik Flaszen, Thomas Quillardet; as atrizes Iben Nagel, Julia Varney, Roberta Carreri e Teresinha Bueno; os atores Fernando Montes e Mario Vedoya; a artista e professora Claudia Tatinge; o cenógrafo José Manuel Castanheira; o dramaturgo Eduardo Pavlovsky; e o ator e diretor Carlos Simioni. Notabilizado pela prática teatral, o Teatro Poeira também abriu espaço para a reflexão teórica por meio do Programa Teatro e Pensamento, inaugurado pelo professor de filosofia Pedro Süssekind com o curso O trágico em Shakespeare – Um estudo das quatro grandes tragédias (Hamlet, Otelo, Rei Lear e Macbeth). As professoras Carolina Araújo e Luisa Buarque realizaram um curso conjunto intitulado Tragédia grega – A cena de Ésquilo e a Poética de Aristóteles. Participaram do Programa a encenadora Ariane Mnouchkine; o poeta e compositor Antonio Cícero; o professor de filosofia e crítico de teatro Patrick Pessoa; o escritor e jornalista Luís Carlos Maciel; e o professor de filosofia Vladimir Vieira.

Espaço que vem propiciando ao público o contato com artistas das mais variadas correntes artísticas por meio de encenações concebidas no Rio de Janeiro e em muitas outras cidades brasileiras, o Teatro Poeira comemorou suas atividades através de uma exposição interativa, Antes e depois dos espetáculos, em janeiro de 2022, com curadoria de Bia Lessa, que proporcionou aos visitantes desbravar todas as áreas do teatro e se deparar com objetos da história do Poeira, distribuídos por paredes, armários e gavetas. Em determinado estágio da travessia, o visitante chegava ao palco e, de lá, assistia à projeção de um vídeo, exibido em telas localizadas no espaço destinado à plateia, no qual Marieta e Andréa falam sobre o vínculo que as une – e deu origem ao teatro – e as interações com os vários artistas que marcaram presença no Poeira. No foyer do Poeirinha, surgiam fotos de espetáculos ampliadas e coladas numa estrutura que intencionalmente parecia em construção. Uma proposta que sublinhava a ideia do teatro como algo inacabado, em processo. Realçava a noção do espetáculo não como realização cristalizada, e sim como trabalho que muda a cada apresentação, permanecendo sempre em aberto, nunca finalizado – uma perspectiva, aliás, completamente em sintonia com a jornada de Aderbal.

 

 Daniel Schenker