Centro de Demolição

O desejo de conduzir uma companhia de teatro atravessa a carreira de Aderbal Freire-Filho como encenador, pelo menos desde a breve experiência do Grêmio Dramático Brasileiro, em 1974, com as montagens de peças de Flavio Marcio (Réveillon e Pequeno dicionário da língua feminina) e Roberto Athayde (Um visitante do alto e Manual de sobrevivência da selva). Na década de 1980, começou a dirigir espetáculos de importantes coletivos do Uruguai – a Comédia Nacional e o El Galpón –, parcerias que se revelaram duradouras no decorrer dos anos.

Ao mesmo tempo, Aderbal realizou muitos espetáculos avulsos, mas geralmente norteados por inquietações artísticas. Ao se deparar com o Teatro Glaucio Gill – espaço fechado havia anos, onde já tinha mostrado as montagens de Besame mucho e Mão na luva –, procurou Aspásia Camargo, Secretária Estadual de Cultura, e apresentou o Projeto para ocupação revolucionária do Teatro Glaucio Gill / Revolução teatral em Copacabana. Recebeu sinal verde e, em 1989, investiu na ocupação do Glaucio Gill por meio da prática de oficinas, que deram origem a uma companhia: o Centro de Demolição e Construção do Espetáculo (CDCE). O início das atividades do CDCE se deu, portanto, com o começo da gestão de Aderbal à frente do Teatro Glaucio Gill – e com a estreia do primeiro espetáculo concebido a partir do conceito de romance-em-cena, A mulher carioca aos 22 anos, transposição do livro de João de Minas.

A trajetória da companhia, que se estendeu ao longo da década de 1990 e aparece descrita no livro A vontade como princípio da ação, de Antonio Carlos Bernardes, evidenciou características relevantes do trabalho de Aderbal como encenador: a valorização do Rio de Janeiro, seja como universo temático, seja como destaque à história da cidade por meio da realização de espetáculos fora dos tradicionais edifícios teatrais; o esforço de revitalização do teatro político; a aposta num teatro anti-ilusionista, afinado com determinados procedimentos brechtianos; a adesão de Aderbal ao ofício de dramaturgo (em alguns casos, em parceria com Carlos Eduardo Novaes); e a mencionada proposição do romance-em-cena – que seria desenvolvida em outras montagens, posteriores ao percurso do CDCE –, detalhada no livro O romance-em-cena de Aderbal Freire-Filho, de Renata Caldas.

O ponto de partida do CDCE foi com Concerto para piano e andaimes, espetáculo dirigido por Aderbal, escorado em textos de Theodor Adorno. Aderbal aproveitou o espaço em ruínas do Glaucio Gill, que passou a ser reformado. O grupo também fez uma leitura de Rei Lear, a convite de Celina Sodré, naquele instante diretora do Espaço Cultural Sergio Porto e organizadora de um ciclo de leituras de peças de William Shakespeare.

Durante o processo de ensaios de A mulher carioca..., Aderbal ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Vitae para escrever um projeto de dramaturgia sobre João de Minas e destinou a verba aos atores. Meses após a reabertura do Teatro Glaucio Gill e a estreia de A mulher carioca..., o CDCE inaugurou a Feira de Livros de Teatro e a Sala Yan Michalski (uma biblioteca voltada para peças) e mostrou O palco aberto, espetáculo composto por textos brasileiros inéditos, selecionados por Aderbal, sob a direção de Marcos Vogel e Gillray Coutinho.

O CDCE continuou com a apresentação de encenações, intercaladas, nesse momento, com leituras dramatizadas – como O nascimento segundo Saramago – e radioteatros – a exemplo de As enfibraturas do Ipiranga. A montagem seguinte foi Lampião, rei diabo do Brasil, com Aderbal acumulando as funções de autor e diretor, além da criação da letra de uma música de Nico Nicolaiewsky – a Canção das Mulheres do Harém de Lampião. Nesse espetáculo, Aderbal revisitou as histórias que ouviu, na infância, sobre o lendário cangaceiro num texto em que oscilou entre o real – a saga de Lampião no cangaço – e o fantasioso – através da inserção de figuras extraídas do imaginário da cultura popular nordestina, herdeiras das tradições ibéricas medievais. Aderbal prosseguiu na investigação sobre a interface entre teatro e literatura por meio de uma dramaturgia que privilegiou o recurso da narração.

Emblemáticas personalidades brasileiras permaneceram no foco do CDCE, que concretizou um de seus espetáculos mais marcantes: O tiro que mudou a história, recriação das últimas horas de vida do presidente Getúlio Vargas apresentada em formato itinerante nos espaços onde os fatos se deram: os aposentos do Palácio do Catete. Apesar das locações reais, não havia a intenção de reproduzir, de maneira absolutamente fidedigna, a história. Idealizado a partir de um convite de Helena Severo, diretora do Museu da República, a encenação – planejada para poucas sessões, mas prolongada por causa do sucesso de público – começava nos jardins do palácio e terminava no quarto de Getúlio, com a leitura da carta-testamento. Aderbal dirigiu, assinou o texto (com Carlos Eduardo Novaes), revezou com Domingos Oliveira a interpretação de Benjamin Vargas, o explosivo irmão de Getúlio, e, em dado instante, assumiu o papel do ministro José Américo de Almeida, antes feito por Jonas Bloch. O espetáculo foi adaptado para a televisão na série O grande teatro, sob a direção de Ricardo Nauenberg, exibida na TV Cultura e emissoras educativas.

A encenação de O tiro que mudou a história influenciou decisivamente no espetáculo do CDCE que veio logo após – Tiradentes, a inconfidência no Rio. Vários elementos unem as duas montagens: a escolha de um personagem real, ligado à história do Brasil e, em particular, do Rio de Janeiro; o formato de apresentação itinerante; a vontade de Aderbal de firmar, já a partir do espetáculo anterior, um núcleo de teatro político; e a extensão da parceria, na esfera dramatúrgica, entre Aderbal e Carlos Eduardo Novaes. Se em O tiro... os espectadores percorriam os ambientes de uma mesma locação, em Tiradentes foram levados a transitar de ônibus por diferentes pontos da cidade, a maior parte deles localizada no Centro – Paço Imperial, Museu da República, Museu Histórico Nacional, Rua da Carioca e Praça Tiradentes. O trecho final da travessia, entre a Rua da Carioca e a Praça Tiradentes, era aberto a todos os transeuntes que acompanhavam a via-crúcis do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, interpretado por atores distintos, da conspiração ao enforcamento. Depois da temporada na rua, o espetáculo entrou no Glaucio Gill, também em disposição itinerante pelos espaços do teatro.

A distância em relação à cena realista e ilusionista foi frisada por meio da montagem de Turandot, de Bertolt Brecht. A peça veio à tona numa conversa com Ruben Yanes, diretor do grupo uruguaio El Galpón, que Aderbal conduziu na encenação de Egor Bulichov y otros (Los comerciantes), texto de Maximo Gorki. Ambientada na China imperial, Turandot conta a história de um imperador chinês que detém o monopólio da produção de algodão, que, porém, desaparece devido a um golpe do irmão do monarca. Diante do aumento do preço do algodão, o imperador convoca um congresso de intelectuais para explicar ao povo as circunstâncias da crise. Aderbal, que lançou o subtítulo O congresso dos intelectuais, sugeriu uma articulação com a ascensão do regime nazista. A encenação encerrou a gestão de Aderbal no Teatro Glaucio Gill. O CDCE migrou para o Teatro Carlos Gomes, onde Aderbal passou a estabelecer a programação a convite de Helena Severo, secretária de cultura na gestão Cesar Maia e responsável pela criação da Rede Municipal de Teatros. O lema de Aderbal nesse novo período: um teatro aberto ao sol.

Motivado por uma proposta do dramaturgo José Sanchis Sinisterra, que escreveu a peça, Aderbal encenou Ay, Carmela! no Brasil. Dividiu a direção com Sinisterra, que nunca tinha tomado a frente numa montagem de texto de sua autoria, e trabalhou como ator ao lado de Christiane Jatahy. Aderbal fez o papel de Paulino, que forma com a esposa, Carmela, uma dupla de artistas de variedades. Durante a guerra civil espanhola, em 1938, Paulino se vê obrigado a realizar apresentações para os fascistas italianos e conta com a fantasiosa presença de Carmela, já morta pelos paramilitares. A peça, que sinaliza um debate ético sobre o ofício do artista, havia sido adaptada para o cinema por Carlos Saura.

Aderbal voltou à dramaturgia brasileira através de Senhora dos Afogados, uma das peças míticas de Nelson Rodrigues, escrita em 1947 e encenada, após ser liberada pela censura, em 1954, sob a direção de Bibi Ferreira, com a Companhia Dramática Nacional. A peça, uma das mais reveladoras da influência da tragédia grega na obra de Nelson, confronta o leitor/espectador com a pulsão de morte da família Drummond – em especial, o patriarca, o juiz Misael, a esposa, Eduarda, e a filha, Moema, que tem fixação no pai. Caminhando na contramão das convenções, Aderbal fez com que o elenco extraísse sonoridades de diversos objetos utilitários, como pentes e raladores (direção musical de Tato Taborda).

O CDCE se dedicou ainda a espetáculos dirigidos por outros integrantes do grupo – Marcos Vogel e Gillray Coutinho. Vogel capitaneou duas encenações de peças de William Shakespeare – As alegres comadres de Windsor e Os dois cavaleiros de Verona. Coutinho conduziu montagens de autores ingleses - Completamente só, de Terence Rattingan, Um lindo punhal de fitas lindas, de Brian Gear, Pavor, de Clive Baker, Um desordeiro na escada, de Joe Orton, O amante, de Harold Pinter, e Lear, de Edward Bond. E dirigiu Dança do homem com a mala, de sua autoria.

O CDCE terminou as atividades em 1994, mas semeou muitas iniciativas que vieram a seguir. Foram os casos da Companhia do Paraíso, com a montagem de Novas histórias do paraíso, a cargo de Gillray Coutinho; do Núcleo de Teatro para a Infância, marcado pelo espetáculo A incrível história de Marco Polo e sua exuberante viagem ao Oriente, com concepção de Dudu Sandroni; do grupo Os Mulheres Cariocas, que retomou Turandot, de Brecht, em versão reduzida, com apenas quatro atores, sob o título O congresso dos intelectuais, direção de Aderbal; e do coletivo Núcleo de Teatro a Céu Aberto, conduzido por Marcos Vogel, com uma nova encenação de Os dois cavaleiros de Verona e com A tragédia de Otelo – O negro de Veneza, ambas peças de Shakespeare.

Daniel Schenker