AS MUITAS VIDAS DO MITO IMORTAL

Jornal O Globo
11 de setembro de 1987
Aderbal Júnior

Carlos Gardel não tem uma biografia só. Nem era possível para um cantor nascido no final do século passado que, até hoje, como garantem os seus admiradores, cada dia canta melhor. Essa frase repetida da devoção a Gardel – “Carlitos cada dia canta melhor” – que afirma o princípio mitológico da imortalidade, é também uma senha para deixar aberta a caixa de lendas que aumentam a sua história. Hoje, Carlos Gardel são vários e é impreciso o contorno da realidade sobre a visão legendária do fundador dessa religião.

Charles Gardés, assim com o nome também no plural, nasceu em 1882, 1887, 1889 e 1890, pelo menos. Os biógrafos mais acreditados fixam em 11 de dezembro de 1890, em Toulouse, França, data e lugar exatos de nascimento. A versão talvez mais fantasiosa e que agora não só os biógrafos ortodoxos acham esdrúxula, é a que dá Carlos Gardel como nascido em 1882, em Tacuarembó, Uruguai, filho de um fazendeiro de sobrenome Escayola e de uma comcubina sua chamada Manuela, sendo que a mãe francesa, nessa história, tem o papel de madrasta.

A narrativa do encontro com José Razzano, que seria seu companheiro de quase toda a vida, por mais reais que tenham sido os fatos e as circunstâncias, também ganha um inevitável tom de ficção. Registra-se 1913 como o ano em que começa a dupla, e 1917, o ano em que gravam o primeiro tango.

A mítica peregrinação do duo Gardel-Razzano se enche ainda mais de encanto quando um dos evangelistas acrescenta, casualmente, uma escala que mistura os dois cantores com a sua época: o cinema Empire, onde eles cantam para completar o programa nas noites em que se exibem “Madame Butterfly”, com Mary Pickford e “Sob duas bandeiras”, com Theda Bara. Os anos de ouro da vida de Gardel vão de 1917 até o ano da sua trágica morte, em 1935. Novos fatos e novas lendas fazem a contra-dança no meio de algumas centenas de tangos.

E, assim como teve vários nascimentos, Gardel teve muitas mortes. Como se não bastasse para a afirmação de um mito o sacrifício do deus por seu povo – e Gardel se deixou morrer no avião, instrumento de suplício que naquela época seria cruel, para atender a seus fiéis – as muitas versões dessa época são também outra virtude mitológica.

Depois de quatro filmes em Nova York, Gardel ia finalmente atender compromissos de uma turnê por alguns países da América do Sul e Caribe. Na sua última carta de Nova York para Defino diz: “25 de março de 1935. Quinta-feira, saio para Porto Rico…projetos! Meus projetos são os seguintes: ao terminar a excursão que será em fins de julho, voltarei para Nova York para ver como estão as coisas, para dar os últimos toques nos futuros contratos com películas espanholas ou ingleses e então irei para a Europa buscar ‘la viejita’ e dali rumarei para Buenos Aires, onde espero estar em setembro.”

Quase um mês depois, em 24 de junho, a caminho de Cáli, o avião faz escala em Medellin, onde centenas de pessoas vão saudar o ídolo no aeroporto El Techo. Ao mesmo tempo o avião “Manizales”, um trimotor da companhia alemã Scadta, preparava-se, com os motores ligados, para voar com destino a Bogotá. O avião de Gardel choca-se com este e, nesse espaço de poucos segundos, cabem dezenas de histórias novas, cada uma delas abrindo um sentido novo para contar a vida do mito. Uma testemunha sugere que se preparava alguma coisa contra ele e que, portanto, o acidente teria sido provocado. A perícia oficial fala de um fenômeno aerológico que consiste na aparição súbita de uma corrente de ar, que seria a causa do choque dos aviões.

Apesar de ter sobreviventes (cinco pessoas conseguiram se salvar) o mesmo fogo queima todas as possibilidades de negar ou confirmar as versões de um tiro de pistola que acrescenta novos tons trágicos ao acidente. Teria sido um tiro criminoso: segundo uns, uma discussão entre o cantor e o piloto, segundo outros entre Le Pera e Gardel, levando Le Pera a disparar e ferir o piloto acidentalmente.

Tão imaginativas quanto as cenas do tiro no avião, talvez mais, são as hipóteses de que Gardel não morreu nesse acidente, reaparecendo periodicamente, velho e terrivelmente desfigurado, mas cantando. Há 52 anos da sua morte, Carlos Gardel é um personagem que, cada vez mais, resume a aventura do homem na América do Sul.