ANTES QUE ME MATEM

O Globo - Opinião
12 de dezembro de 2010
ADERBAL FREIRE-FILHO

Como não tenho Twitter (o verbo é ter mesmo?), só agora, graças ao e-mail de um amigo, li as mensagens da juventude twitterista que quer acabar com os nordestinos. Vou pedir asilo na casa do Domingos Oliveira, o mais carioca dos meus amigos, pois a coisa é feia.

Por isso, não é hora para brigar entre nós, nordestinos. Vão dizer que somos tão repugnantes (dizem isso e muito mais!) que nem no câncer somos solidários, como os mineiros são. E quero menos ainda brigar com o cearense mor, nosso querido Luís Carlos Barreto. Quando peguei meu pau de arara já trazia na mala fabricada no Juazeiro uma admiração grande pelo Barretão, pelo Chico Anísio, es­ ses cabras danados, cada um do seu jeito honrando Maranguape e as redondezas,·isto é, o Ceará. Nem sou de briga. Da indústria avançada do Juazeiro só trazia a mala, nunca fui homem de peixeira, indústria de ponta (em todos os sentidos) em que os juazeirenses competem com os suíços, e tenho pra mim que ganham.

Um dia desses, falando do Ubaldo e do Jabor, escrevi que não devemos misturar nossas divergências políticas com nos­ sas admirações artísticas e afetos. Por isso, quando esses dois artistas vinham de peixeira e trabuco, chamando de estúpidos os que concordavam com 84% dos brasileiros sobre os avanços do governo Lula, eu reagia com viva o povo brasilei­ro e eu te amo.

Mas o assunto cultura no­ novo governo merece muitas reuniões, muitas discussões para continuar o processo iniciado com Gilberto Gil há oito anos e que desde aí não parou de avançar. Ao contrário do mestre Luís Carlos, sou pela continuidade no ministério. Não considero que algumas manifestações de apoio a Juca Fer­reira sejam pressões pela sua permanência, mas reconheci­ mento pelo que foi feito e, mais do que isso, defesa de uma política vencedora. Tivemos ministros da cultura extraordinários, basta citar Celso Furtado, mas nunca tivemos um ministério estruturado, que tenha feito mais e melhores tentativas de ajustar suas medidas ao território vasto e difuso da arte e da cultura, mais complexo ainda no nosso caso, pela grandeza do Brasil.

Como em todas as outras áreas do governo, muito mais está por fazer do que foi feito, pois oito anos não são suficientes para compensar um passado tão grande de desacertos. Mas quando vemos uma escala­da, como vimos com o presidente Lula, não queremos jogar fora as conquistas e descer serra abaixo.

O atual ministério, entre suas muitas ações pioneiras, abriu um diálogo amplo com artistas, que precisa ser mantido. Então, as eventuais discordâncias de todos nós encontram ouvidos atentos no corpo atual do ministério, e é essa a principal razão da minha defesa. O Ministé­rio da Cultura está permanente­mente reunido com os artistas do Brasil, em consultas públicas, fóruns, reuniões setoriais, etc. Foi assim que construiu muito e é assim que permanece um ministério em construção.

No meu asilo político na casa do Domingos vou certamente conversar muito com ele sobre outra divisão: segundo o Do­mingos, deveriam ser dois ministérios, um ministério da cultura e um ministério da arte. Faço outra proposta: não se divide nada, pois a divisão enfraquece, e o ministério continua discutindo e construindo, como tem feito.