ABRIR TEATROS COM UMA IDEIA

O Globo, 04/02/2009
Aderbal Freire-Filho

Vou meter minha colher nesse caldo que está sendo servido ao povo do teatro, para ir à origem da tão discutida rede municipal de teatros. Ou seja, vou meter minha colher ab ovo.

Tudo isso começou um dia desses, anos 1990, mas é tanta a desinformação que parece que foi há séculos. Já ouvi, numa reunião de gente de teatro, alguém bradar, com essa mesma ignorância: “Antes desses diretores mandarem nos teatros do município, eles eram ocupados por peças escolhidas em concorrências”. E eu, do fundo da sala: “Companheiro, antes desses diretores, o município não tinha teatros”. Pronto, esse é o ponto. E basta contar a história da criação da rede para que não sejam ditos mais tantos disparates. Ouçam.

Quando Cesar Maia ia assumir seu primeiro mandato, e mais uma vez se vivia o alvoroço de sempre dessas épocas, a secretária de Cultura nomeada, Helena Severo, decidiu também ouvir gente de teatro para formular uma política. Não dá pra dizer como se combinaram as sugestões e as circunstâncias, mas enumero umas e outras para mostrar como se chegou a uma proposta e a uma prática, resumidas na rede de teatros do município.

Até essa época, todos os teatros públicos do Rio eram estaduais (Villa-lobos, Gláucio Gill, João Caetano, o Municipal, apesar do nome, etc.) ou federais (Dulcina, Glauce Rocha, ex-Nacional de Comédia, Cacilda Becker, por aí).

A prefeitura, que não tinha teatros, estava às vésperas de inaugurar um, o tradicional Carlos Gomes, comprado da família Segreto por Saturnino Braga, reformado por Marcelo Alencar. Nos últimos anos, muitos teatros particulares tinham sido fechados no Rio: Copacabana, Santa Rosa, Delfim, Glória, Maison, Senac… A prefeitura seria a instância própria para propor aos donos dessas salas a reabertura delas, oferecendo-se para administrá-las. Também era evidente a falência do sistema de ocupação dos teatros estaduais e federais: o Dulcina e o Cacilda fechados, o Villa-Lobos contando com a mão de Deus para não desabar na cabeça dos espectadores, etc.

Essas circunstâncias desaguaram em conversas sobre a função dos teatros públicos. E levaram a dirigir um olhar para fora do Brasil, para cidades onde os teatros públicos eram tratados de outro modo. Foi assim que surgiram os exemplos do Théatre National de La Colline, em Paris, entregue à direção de Jorge Lavelli; do Théatre National Populaire, um teatro pensado “como um serviço público, como o gás ou a eletricidade”, segundo as palavras de Jean Vilar, seu primeiro diretor, depois substituído por Roger Planchon; de Mathias Langhof, o encenador alemão, dirigindo o Teatro de Comédia de Genebra; de Giorgio Strehler, confessando por que aceitava voltar à direção do Piccolo de Milão: “Eu aceitei (…) para tentar de novo tornar vivo o teatro público como teatro da razão, da poesia, ou melhor, da arte cuja ideia amadureci durante difíceis e obscuros anos de dúvidas e lutas”.

Circunstâncias, sugestões e sobretudo a discussão de um pensamento sobre as funções dos teatros públicos. Assim nascia uma rede de teatros. Um projeto de abrir e agrupar casas que estavam fechadas e entregá-las a artistas de teatro, para que cada um deles criasse, à sua maneira, um centro de irradiação da arte teatral. Isso incluía montar espetáculos próprios e programar o teatro. Era, enfim, uma alternativa às comissões de burocratas que julgavam, com vagos conceitos democráticos, as concorrências públicas de pura aparência. A secretária de Cultura teve o bom senso de entregar os teatros a artistas de perfis muito diferentes, Domingos Oliveira, Sérgio Britto, Enrique Diaz, Moacyr Góes, Wolf Maya e eu. Não fomos convidados a abandonar nossas atividades artísticas e virar administradores. Por isso, dizer que “os teatros abrigavam espetáculos dirigidos por seu próprio gestor” é dizer uma frase absurda, sem sentido, que revela total desinformação, ao menos. Essas salas foram criadas para isso e ao longo desses últimos 15 anos, com todas as aporrinhações causadas por cada secretário que muda os nomes, dificulta em vez de aperfeiçoar o sistema, esse projeto rendeu muitos frutos.

Parte da melhor dramaturgia de Domingos de Oliveira foi criada graças à sua vivência no Planetário. E, ao mesmo tempo, no Carlos Gomes, na Sala Paraíso, nasceu e floresceu o movimento de Nova Dramaturgia. Construí a sala, mas o crédito de entregá-la a esses jovens é de Amir Haddad, que me sucedeu, o divino Amir, outro dos famigerados gestores.

Na minha época de Carlos Gomes, trouxemos companhias nacionais (o Galpão apresentando ao Rio o memorável “Romeu e Julieta”, o Olodum…) e estrangeiras. Contratamos grupos de teatro de rua para apresentações semanais na praça, em frente ao teatro. Criamos o horário do meio-dia, inaugurando com uma programação dos grandes comediantes de teatro de revista. Editamos uma revista, que organizou inesquecíveis mesas-redondas (Gerd Bornheim, Alcione Araújo, Boal, Gabriel Villela…). Depois, Dudu Sandroni transformou o Ziembinski no Teatro Aberto à Infância e à Juventude e liderou um seminário permanente, registrado em um número especial da revista.

Podia declarar muito, muito mais, e cada um desses artistas, mais do que eu, pois mais fizeram. Enfim, tenho a convicção de que a rede representou a melhor experiência para alcançar uma teoria e uma prática de teatro público entre nós. Agora que se anuncia o fim desse projeto, podemos dizer: foi uma bela história. Brindemos por essa história que vivemos, Sérgio, Domingos, Amir, Maria Padilha, Gabriel, Kike Diaz, Moacyr Góes, Wolf Maya, Bia Lessa, Stella Miranda, João Falcão, Moacir Chaves, Cláudio Botelho e os outros que esqueço agora enquanto escrevo, e os muitos mais que caminharam conosco.

Agora a Secretaria de Cultura desmonta o projeto integrado teatro-artista e, parece, volta ao velho modelo dos teatros públicos estaduais e federais. Acho que vai piorar muito, mas essa é só minha opinião. Pode ser que dê certo, pois, na escolha da administradora, a Secretária foi feliz: Ana Luisa Lima é ótima produtora, uma moça inteligente e valorosa, membro ativo da APTR, associação que tem lutado – uma luta também ideológica – pelo teatro carioca.

Mas não foi por causa da minha opinião que resolvi me manifestar. Só meti minha colher porque ninguém contou a história toda, e é preciso que se saiba o que está sendo mudado. Boa sorte, secretária. Apesar da acusação infundada e agressiva a esses artistas do teatro carioca, seu crédito de serviços prestados, em um país de raros políticos da sua envergadura, me deixa dizer que continua contando com minha admiração.