Revista O Globo, 15 maio 2011
Aderbal Freire-Filho
Escrevo enquanto completo 70 anos. Como não se festeja a hora do nascimento, graças à falta de precisão da ciência, e sim o dia, levamos um tempo maior para completar um aniversário do que para nascer. Se fosse como corresponde, o aniversário seria igual à meia-noite do 31 de dezembro, o tempo do estouro da garrafa de champanhe, puf!. Completei hoje de manhã 70 anos, devia dizer. Festejou? Não, dormi. O despertador não funcionou, fica pro ano que vem o champanhe que estava na geladeira esperando a hora. Como não é assim, um aniversário passa mais devagar do que a vida.
Pois enquanto completo 70 anos comparo o tédio desse dia que não anda com a agonia dessa vida apressada que não consigo acompanhar. Para resolver o disparate, tento me desembaraçar das imposições culturais que me impedem de considerar este um dia comum. Apago o email de parabéns do programa de milhagem, o do banco e o das Americanas que me desejam feliz aniversário e começo a encarar o zilhão de coisas que·tenho que fazer. A sensação não é boa. É como se eu estivesse tirando as moedas do porquinho para pagar uma dívida monumental. Sou refém do fantasma dos 70 anos. Seria a hora de fazer como Paul Laforgue, o genro de Marx, que se suicidou com a mulher, aos 69 anos, “antes que a impiedosa velhice paralise minhas energias e enfraqueça minha vontade”. Mas ontem perdi esse prazo.
Também sei que tem a velhice dos 50, a dos 60. Mas a dos 70 é definitiva. Acho que descobri uma boa definição de velho: todo mundo que tem 20 anos a mais do que aquele que acusa (o outro de velho). Um homem de 40, para quem tem 20; um de 50, para quem tem 30; e assim por diante, até as pessoas de 80, para quem tem 60. Mas essa definição não vale mais para os 70, a partir daí (daqui) não existem muitos velhos com quem me comparar, agora é comigo mesmo. Estou fazendo a última escala antes do fim da viagem. “Você não parece” e “não me sinto” são atenuantes que não valem muito. E as famosas compensações muitas vezes são amargas. Por exemplo, uma coisa que é vista bem dessas alturas é a transitoriedade. Passo na Avenida Vieira Souto, vejo um apartamento sendo reformado e penso no dia em que esse casal de jovens bem-sucedidos e modernas luminárias que estão instalando vão ser substituídos outra vez, vão entrar também no saco do passado, como entraram agora os ex habitantes do imóvel.
Para piorar, a melhor visão que se tem daqui é a da morte. Quando se soma a todos os acidentes a proximidade do fim do funcionamento da máquina, a morte senta, rindo, na cadeira em frente. Você levanta e ela vai junto. Às vezes me surpreendo querendo saber se o que vou fazer pela última vez é abrir ou fechar a porta de casa, isto é, se saio e não volto mais, ou se entro e não saio mais.
Enquanto completo 70 anos, esfrego o rosto, faço caretas só pensando no que ficou faltando fazer, querendo de volta as horas em que fiquei bestando. Vou segurando na química a pressão, o colesterol e fazendo fisioterapia para apressar o passo. Os anos que faltam são poucos, é preciso correr. Quero fazer muita coisa ainda. Mesmo sem saber para quê.
Sentada aqui em frente, a “moça” me mostra uma fotografia bem antiga de uma praça: essa gente toda já morreu, essas mulheres e homens, essas jovens risonhas, essas criancinhas de colo. Corta pra hoje. Sou como o velho da foto, sentado nesse banco, empertigado. E os outros são os que dividem o mundo comigo hoje. Daqui a um tempo, vamos ser só essa fotografia, que outro sem destino vai estar olhando nos seus 70 anos. Desculpem, estou dividindo com vocês meu pouco tempo.