Jornal O Globo
8 de outubro de 2007
A nonagenária sociedade
Aderbal Freire- Filho
Senta, que eu te conto.
Tenho um amigo, diretor de teatro argentino, que se queixa das peças de teatro ruins que tem lido, dizendo que em todas, a certa altura, um personagem diz a outro esta frase: “Senta que eu te conto”. Um recurso fácil para resolver o problema de despejar logo o assunto. Bom, não é uma peça de teatro que estou escrevendo, mas senta que eu te conto. Não é uma peça de teatro, mas aproveito a deixa e escrevo como se fosse.
(São quase cinco da tarde, alguns já chegaram, a chuva é certamente a responsável pelo atraso dos outros. Chiquinha Gonzaga, a personagem principal.)
Chiquinha: Vamos começar a reunião. Já falei com quem faltava falar, com o Carlos Cavaco e com o Bastos Tigre. Na Colombo, outro dia, combinamos de juntar 20 pessoas, somos 21. Se vierem 11 a essa reunião, já é mais da metade, está ótimo.
(É quinta-feira, dia de chá na Academia, mas mesmo assim Viriato Correa está aqui, na mesma hora do chá. Trocou uns bons biscoitinhos por este encontro. É convidado para secretariar a sessão. Ninguém se lembrou de comprar um livro de atas, mas de repente aparecem umas folhas de papel almaço. Chegam Luiz Peixoto e Oduvaldo Vianna, de galocha e gabardine, com eles já são 13.)
Viriato: O Eurycles de Mattos não vem. Tem que fechar o Jornal, não pode vir. Ligou para o meu celular se desculpando e dizendo que aprova tudo o que a gente decidir.
(Ninguém nota o anacronismo, estão todos muito empolgados com a reunião. Só Raul Pederneiras, caricaturista famoso, com sua voz de trovão e seu jeito sacana.)
Raul: Celular? Em 1917?
(Só aí se dão conta, todos passam a falar ao mesmo tempo. Celular? O que é isso? Substitui o moleque de recados melhor ainda, alguém responde. Ninguém se entende. Oscar Guanabarino, crítico de arte do “Jornal do Commercio”, tenta pôr ordem na casa.)
Oscar: Calma, gente. É o futuro, o resultado dessa reunião. O que o mundo vai mudar a partir de hoje. O Eurycles de Mattos, por exemplo. Vai ser o diretor-redator-chefe do GLOBO, um Jornal cujo fundador morrerá poucos dias depois do seu lançamento. Quando o Eurycles morrer, em 1931, o filho do fundador, Roberto, vai assumir a direção do Jornal e um dia vai criar uma televisão.
(Outra confusão. Agora todo mundo quer saber o que é televisão. Chiquinha Gonzaga resolve acalmar seus amigos, abre as janelas, mostra a calma daquela rua carioca na tarde chuvosa do começo do século. Poucos dias mais, 7 de novembro, e na Rússia vencerá a Revolução Comunista. Mas estamos em setembro, e ainda virá outubro ou nada e a voz distante de Malakovski. Deve-se esquecer o celular, a televisão, a Revolução Russa, o futuro do Eurycles, que, além de dirigir O GLOBO, um dia vai ser nome de rua em Laranjeiras).
Chiquinha: Fala, Viriato.
Viriato (escrevendo com sua letrinha miúda, enquanto lê, em voz alta): Aos 27 dias do mês de setembro de 1917, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, às 17 horas, presentes os abaixo-assinados, foi instalada a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Eu, Viriato Correa, secretário ad-hoc, lavrei a presente ata…
(Sua voz vai sumindo.)
Não foi exatamente assim como está aqui nessa tentativa de reconstituição, até porque aqueles autores teatrais não podiam prever o futuro. Mesmo que, além da imaginação de dramaturgos, contassem com informações privilegiadas, pois muitos eram Jornalistas. O primeiro presidente da Sociedade, por exemplo, foi o notável cronista João do Rio. Mas esse debate sobre o futuro foi uma forçada de barra, eu avisei que peças começadas com “senta que eu te conto” são ruins.
De qualquer jeito, vale o caráter profético do drama (ou da comédia), para mostrar como o mundo mudou desde que esses 21 escritores criaram a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Não era só celular e televisão que não existiam. Não existia cinema sonoro, não existia rádio, computador, então, meu Deus! É portanto surpreendente que uma sociedade de autores de teatro fundada numa tarde chuvosa do começo do século passado ainda exista. Nem a União Soviética, fundada um mês e pouco depois, existe mais…
No 27 de setembro, essa sociedade completou 90 anos. Vive um momento difícil, não tem mais uma diretoria, mas um conselho que deseja recuperá-la. Em vez daqueles entusiastas de 1917, os personagens de 2007 são Millôr Fernandes, Ziraldo, Alcione Araújo, Orlando Miranda, entre outros. Alguns sócios saíram, mas os que ficaram já estão sentindo os ventos da recuperação. E entre esses estão desde autores consagrados a jovens autores.
O projeto de recuperação da Sbat depende do fortalecimento do seu caráter de centro cultural. Uma semana antes de morrer, em dezembro do ano passado, João Bethencourt presidiu uma assembleia da Sbat. Entre seus planos estava a criação de um centro de estudos de dramaturgia. Esse centro, uma premiação nacional para autores (roteiristas incluídos), a volta da revista que a sociedade editou de 1924 a 2002, a publicação de peças em encartes na revista e muitas iniciativas semelhantes podem desmentir, pelo menos no campo do teatro, a afirmação de que o brasileiro despreza seu passado, sua História. Mas, sobretudo, essas iniciativas podem consolidar a sociedade de poetas do teatro. No teatro de hoje, o conceito de dramaturgia é cada vez mais amplo. A poesia da cena é também obra de atrizes, atores, diretores, cenógrafos, iluminadores etc. É mais uma mudança (o cinema sonoro, o fim do teatro de revista…), e, enquanto outras mudanças feriram a Sbat, essa pode revigorá-la. Agora, a casa é de todos. É a hora de todos os artistas de teatro virem para o velho edifício da Almirante Barroso, ensolarados (mesmo nos dias chuvosos).