A CULTURA NO PODER E O PODER NU

Jornal do Brasil - Caderno B
24 de Setembro de 2006
Aderbal Freire-Filho

Outro Brasil. Não precisa ser o paraíso terrenal das cartas de Rui Pereira, em 1560, a seus irmãos de fé portuguesa. Mas não precisava ser tão difícil. Está bem, não é só o Brasil, é o mundo que está um inferno. Então, outro mundo. Em que, no juízo final, um italiano não precisasse xingar a mãe e a parentela toda de um francês e o francês não reagisse com uma cabeçada. Bom, é mais do que outro mundo, é caso de outro homem. Aí vai ser mais difícil, não dá para resolver numa edição de domingo. Mas um outro Brasil vale a pena ao menos tentar.

Na nossa tribo, estamos sempre falando que a cultura pode salvar (o Brasil, o mundo, o homem). Que tribo é essa? Bastava dizer, a tribo deste caderno b, um marco na cultura brasileira. Mas prefiro ser mais modesto, ou mais pessoal, ou mais romântico, ou mais nacional (para não ficar na carioca geração Paissandu). Assim: na Praça do Ferreira, mais perto do equador, nos anos 60, essa tribo era chamada de os culturais. Eram os que chegavam à praça depois dos halterofilistas e antes dos radialistas, dos jogadores de carteado e dos putenheiros, os últimos, que só chegavam quando acabava a noitada na zona, isso quando não dormiam por lá mesmo. Os culturais saíam da sessão das dez do cinema São Luiz para salvar o mundo a partir dos bancos da praça. Os primeiros que se mandavam, cansados desse papo furado, eram os halterofilistas.Tinham de acordar cedo para tomar sua dose diária de Charles Atlas, o açaí daquela época. Logo eles que podiam ser nossa tropa de choque. Ficava o pessoal do carteado, bocejando, e os putanheiros,em geral bêbados. Não tinha muita graça, pois só os culturais acreditavam que a cultura podia salvar o mundo.